Da "Private Equity" ao racionamento do crédito

16 de setembro 2007 - 0:00
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Já tinha referido [no blogue ladroesdebicicletas] o negócio que envolve a compra da Chrysler por um fundo "Private Equity", o Cerebus. Este tipo de negócios são feitos, na sua quase integralidade, com recurso ao crédito. Normalmente, titularizados pelos bancos envolvidos. Ou seja, eu, enquanto pequeno investidor, posso comprar títulos do crédito que a Cerebus irá utilizar na compra da Chrysler. Os bancos conseguem, assim, financiar a operação sem inscrever o crédito no seu balanço.



Artigo de Nuno Teles, publicado no blogue ladroesdebicicletas.blogspot.com a 26 e 27 de Julho



Ora, segundo o Financial Times, os bancos financiadores desta operação não conseguiram encontrar no mercado investidores suficientes para a subscrição destes créditos. Terão, pois, eles próprios que recorrer aos seus fundos, limitando assim a sua capacidade futura de financiamento.



O problema coloca-se quando se procuram explicações para o que aconteceu. Uma é a desconfiança crescente com que os fundos de "private equity" são vistos pelos mercados, dado o escasso escrutínio público de que são alvo. Até aqui, nada de muito grave. No entanto, estas recentes dificuldades podem ser sintoma de um problema mais sistémico. O mercado de crédito à habitação norte-americano tem estado em ebulição. O mercado dos títulos mais arriscados (créditos feitos a indivíduos com fraca capacidade de pagamento) está em crise há meses. Assim, esta crise pode estar a contagiar os restantes mercados de crédito, resultando num racionamento geral.



Crise financeira?



A segunda explicação parece confirmar-se. Os mercados financeiros internacionais caíram abruptamente. O medo da generalização da actual crise dos mercados de crédito é cada vez maior.



Ainda é cedo para fazer previsões. Devido à falta de regulação pública, existe uma enorme opacidade quanto ao risco suportado pelos diferentes agentes. Devido aos múltiplos (e exóticos) instrumentos financeiros é difícil avaliar a robustez dos mercados. No entanto, as diferentes análises da imprensa financeira têm alertado para a falta de prudência dos mais importantes actores.



Em 2001, devido à intervenção oportuna da Federal Reserve e ao relaxamento do equilíbrio orçamental, as políticas públicas permitiram que o fim da bolha especulativa bolsista da segunda metade dos anos 90 não resultasse em mais do que uma breve recessão. Tudo depende da capacidade política de acção e do tamanho do "tombo" que a economia norte-americana enfrenta.



Se estes riscos são globais, porque é que ainda não li nada na imprensa portuguesa? Devo andar desatento.

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