Crise financeira: do G8 ao G20

21 de dezembro 2009 - 0:00
PARTILHAR

No início do ano, o Forum de Davos reuniu como habitualmente a nata da classe empresarial mundial. Mas desta vez contou com ausências importantes. Alguns dos gestores que noutras edições davam a receita neoliberal para economia tinham sido despedidos após a falência das suas empresas, ou estavam na prisão por fraude financeira. As estrelas rock e de Hollywood também preferiram desta vez manter-se à margem do encontro.



Mas quem pudesse pensar que o mundo estava à beira de estabelecer regras claras contra os abusos da especulação e dos offshores, depressa percebeu o engano. Apesar de revistas conceituadas no sistema capitalista - a começar pela "Economist" - dizerem que os principais paraísos fiscais estão sob tutela dos EUA e da Europa, a reunião do G20 em Londres ficou-se pela publicação de uma lista "cinzenta" dos offshores que não seguem as regras da OCDE. De fora desta lista negra ficaram os offshores que de facto concentram a grande fatia do dinheiro escondido do fisco dos países de origem e que na maioria dos casos dependem de países com poder de negociação política internacional.



Entretanto, o PIB dos 30 países da OCDE registava a maior queda desde 1960 no primeiro trimestre do ano e a Organização Internacional do Trabalho previa que o emprego fosse demorar seis a oito anos a retomar os níveis anteriores à crise. Só na União Europeia, a diminuição de empregos quase atingiu os 2 milhões só nos primeiros três meses do ano.



Em Setembro, a ONU anunciou que pela primeira vez a fome vai afectar mais de mil milhões de pessoas no planeta. Mais grave ainda é o facto do orçamento do Progama Mundial de Alimentos ser o mais baixo dos últimos 20 anos. A ONU sublinha ainda que apenas 1% das verbas que foram injectadas nos bancos seriam suficientes para reduzir muito substanciamente esta catástrofe. Nos EUA, o estudo oficial sobre segurança alimentar concluiu que uma em cada seis famílias passou fome em algum momento do ano anterior.



No último trimestre do ano, multiplicaram-se as notícias de que os grandes gestores financeiros nada tinham aprendido com a crise, voltando a distribuir bónus gigantescos pelas administrações, dinheiro muitas vezes vindo directamente dos cofres públicos como auxílio para combater a crise. Sem surpresa, os países do G20 não aceitaram limitar estes bónus na cimeira de Pittsburgh em Setembro, e optaram por adiar as penalizações a offshores incumpridores e a limitação dos mercados de derivados, que em muito contribuiram para encher a bolha especulativa que rebentou em 2008.



As ajudas aos bancos não pararam ao longo do ano, que termina com o governo inglês a injectar milhares de milhões de libras no Royal Bank of Scotland e no Lloyds Group e o governo austríaco a nacionalizar o Hypo Group para evitar a falência.



Mas os custos totais não deverão ficar por aqui já que o próprio director do FMI admite que metade das perdas da crise não tenham sido ainda reveladas, com esses "activos tóxicos" ainda presentes no balanço da contabilidade dos bancos. A prová-lo está a crise aberta em Novembro no Dubai, com um dos grupos financeiros que concentrava boa parte da dívida a pedir a suspensão de pagamentos por seis meses, criando novo efeito dominó nas bolsas mundiais.

Termos relacionados: