Está aqui

Crime organizado contra a Grécia

O “plano de salvamento” adoptado pela União Europeia (UE) e pelo FMI impede os debates e medidas democráticas que há que impor na Grécia e em toda a Europa: abertura dos livros de contas (dos estados, dos bancos, das empresas) e balanço do fracasso da UE neoliberal como atesta o recurso ao FMI. Artigo de Hugo Harari-Kermadec, Catherine Samary

Georges Panpandreu aceitou um plano de austeridade sem precedentes: em contrapartida por uma ajuda de 100 mil milhões de euros em três anos, o estado compromete-se a realizar 30 mil milhões de euros de economias. Os lucros e os mercados financeiros são poupados, enquanto os serviços públicos e os assalariados devem pagar os estragos!

Do lado da despesa: trata-se de lançar uma nova ofensiva contra os serviços públicos de educação e de saúde – diminuindo um pouco os gastos militares muito acima da média da União Europeia (UE) – mas garantindo que a França, segundo fornecedor de armamento à Grécia, verá as suas encomendas protegidas. Está prevista una contra-reforma das reformas, pior que a que nos ameaça em França. Os salários dos funcionários serão baixados e depois congelados; e no sector privado, os despedimentos são facilitados, ao mesmo tempo que se introduz um salário mínimo para os jovens e os desempregados de longa duração que encontrem um emprego – o que multiplicará os “assalariados pobres”…

Do lado das receitas: as privatizações dos transportes e da energia agravam uma Europa anti-social e desastrosa para o meio ambiente. No plano fiscal, poupam-se os lucros ou as exonerações de que benificia a Igreja ortodoxa; mas o imposto mais injusto – o IVA – será aumentado.

O recurso ao FMI e a financiamentos bilaterais pelos Estados membros visam salvaguardar a arquitectura neoliberal da UE: ausência de fiscalidade europeia (o orçamento europeu tem o tecto de 1% do PIB), prioridade ao financiamento privado com livre circulação de capitais e “critérios de Maastricht” [1]. Estes, reafirmados hoje, foram estabelecidos em 1992 para que a Alemanha aceitasse renunciar ao marco alemão. O conjunto construiu uma UE cada vez mais assimétrica. Os países designados com desprezo como os “PIGS” (porcos em inglês), Portugal, Irlanda/Itália, Grécia e Espanha (Spain) são uma “periferia” da zona euro, como existe a do Leste. Aos excedentes comerciais e à débil inflação de uma Alemanha que pratica as deslocalizações para o Leste e a austeridade salarial, correspondem uma maior inflação, défices e endividamentos superiores noutros lados.

As agências de notação “avaliam” estes desequilíbrios. Elas que elevavam às nuvens em 2007 o que depois se viu serem “títulos podres” na crise do subprime, permitem-se hoje infligir “más notas” de que se amparam os mercados especulativos: Grécia, Portugal e Espanha são os mais frágeis – mas a Itália tem uma dívida superior à da Grécia e o défice do Reino Unido supera os 10%… Dominique Strauss-Khan e o Eliseu resmungam contra estas agências que agravam a especulação sobre o euro. Mas os “especuladores” são especialmente os próprios bancos. Os da França e da Alemanha têm 80% da dívida grega. O banco central europeu não tem o direito de emprestar aos Estados, mas emprestou aos bancos montantes colossais a juros baixos em plena crise financeira. Este dinheiro serve-lhes hoje para emprestarem, com juros superiores, aos Estados… que acabam de decidir emprestar por sua vez à Grécia, de passagem com um lucro…

O FMI e os governos da UE querem que a Grécia sirva “de lição” europeia. Mas essa Europa deve ser rejeitada por mobilizações que imponham verdadeiras solidariedades, e “critérios de convergência” que visem a subida dos níveis de vida e a protecção do meio ambiente. A moeda e os financiamentos sob controlo público devem estar ao serviço da coesão social. O “plano de salvamento” da Grécia poupa os lucros e os rendimentos financeiros sobre a dívida. Há que rechaçá-lo porque é tão injusto como os planos do FMI noutros lados – e ineficaz: a austeridade significará recessão, causa primeira de défice público – sem fazer cessar a especulação.

Os islandeses recusaram-se a pagar por uma falência que não é a sua, num referendo em Março último. Há que recusar o pagamento de dívidas sem auditoria, transparência e debate sobre essas dívidas.


[1] O défice público abaixo de 3% do PIB e a dívida pública abaixo de 60% referem-se ao orçamento do estado, das colectividades locais e da segurança social: a fiscalidade e as reformas estão pois no coração do que está em jogo. Mas a UE proibiu também aos bancos centrais da zona euro o financiamento dos Estados.

Publicado em Informação Alternativa / Europe Solidaire Sans Frontières  

(...)

Resto dossier

Crise económica - nova fase

Um leque de artigos sobre a crise económica internacional. Opiniões e análises alternativas às que todos os dias saem nos órgãos de comunicação social 'mainstream'. Actualizado permanentemente. 

Paul Krugman alerta para terceira depressão

O mundo pode estar nos primeiros estágios de uma terceira depressão, com o custo de milhões de vidas arruinadas pela falta de empregos, alerta o prémio Nobel Paul Krugman

Crise: Quais as respostas progressistas?

É preciso esmagar as desigualdades: por um lado, pelo aumento da massa salarial e, por outro, pela reforma fiscal. Por Michel Husson, Os novos tempos. 

Um furacão de austeridade paira sobre a Europa

O Fundo Monetário Internacional, depois de impor durante anos medidas duras de ajustamento das contas públicas aos países do sul, impõe agora as suas receitas neoliberais na Europa, diminuindo os direitos laborais em favor de políticas liberais que perpetuam o sistema capitalista. Por Jérôme Duval, Damien Millet e Sophie Perchellet, do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM).

Não são os mercados, mas os bancos que dominam a UE

Este artigo documenta o enorme poder e influência que a banca dos países do centro da UE têm sobre o Conselho Europeu, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.

EUA: a hipocrisia dos "falcões do défice"

O mais revoltante é que, depois de terem sido os maiores beneficiários da magnanimidade do governo nos últimos anos, são precisamente as elites de Walll Street que agora atacam a política fiscal do governo como “irresponsável” e “insustentável”. Por Marshall Auerback, new deal 2.0

"Somos todos trabalhadores gregos"

As Attac na Europa estão solidárias com o povo grego e exigem verdadeiras soluções para a crise do euro.

A guerra de classes moderna

A Grécia é um microcosmo de uma guerra de classes moderna que é raramente relatada como tal e que é combatida com toda a urgência do pânico entre os ricos imperiais. Por John Pilger

“A zona euro está um despenhadeiro”

Em entrevista ao jornal Washington Post, o economista norte-americano James K. Galbraith critica a receita ortodoxa que recomenda o corte de gastos públicos como maneira de enfrentar a crise. Para ele, o que está a acontecer na Europa é desolador.

Crise do euro: precisamos sair de cabeça erguida!

A pretexto da dívida pública, o neoliberalismo tem uma ocasião sem precedentes para impor a sua lógica derradeira: transferir uma parte cada vez maior dos rendimentos dos assalariados, dos reformados e dos desempregados para os grandes detentores do capital. Por Dominique Plihon e Aurélie Trouvé, publicado no Le monde.fr

Que mercados financeiros?

Na realidade, os mal denominados mercados têm muito pouco de mercado. São bancos com muito lucro e poucos riscos. Se os mercados financeiros fossem mercados de verdade, os bancos teriam de absorver as perdas em investimentos financeiros falidos.

Salvar os bancos até quando?

Até os mais consistentes e autorizados comentadores se aperceberam que as enormes somas reunidas com dificuldade para «salvar a Grécia» são efectivamente destinadas a salvar.... os investidores: bancos, fundos e outros credores internacionais. Por Frédéric Lordon

As políticas promovidas pela União Europeia são ineficazes e injustas

É fácil demonstrar que a causa dos problemas dos países com grandes dificuldades não é a despesa pública excessiva. Na realidade, todos eles (Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda) têm, em percentagem do PIB, uma despesa pública mais baixa que a média da União Europeia dos Quinze.

Crime organizado contra a Grécia

O “plano de salvamento” adoptado pela União Europeia (UE) e pelo FMI impede os debates e medidas democráticas que há que impor na Grécia e em toda a Europa: abertura dos livros de contas (dos estados, dos bancos, das empresas) e balanço do fracasso da UE neoliberal como atesta o recurso ao FMI. Artigo de Hugo Harari-Kermadec, Catherine Samary

"O povo grego está a lutar por toda a Europa.”

Nesta entrevista da Democracy Now, Amy Goodman convidou Tariq Ali e Mark Weisbrot para debater a crise e a resposta popular na Grécia.   

Espanha: Governo baixa salários e corta no investimento público

Zapatero anunciou, entre outras medidas de redução de despesas, a baixa de 5% dos salários dos funcionários públicos em 2010. As centrais sindicais opõem-se e falam de contestação nas ruas. 

UE aprova pacote de 750 mil milhões

Na madrugada desta segunda-feira os ministros das Finanças da União Europeia aprovaram a criação de um novo “mecanismo de estabilização financeira”. 

A Eurolândia arde

No caso grego quem está no banco dos réus não são os bancos freneticamente especulativos, mas os Estados sociais. A falência pública grega beneficiaria a quem? Por Michael Kratke.   

Europa Oriental: Desempregados como os pais

Uma geração de meninos e meninas da Europa oriental será pobre quando chegar à idade adulta devido ao prolongado desemprego dos seus pais. Por Pavol Stracansky, da IPS. 

Europa: as guerras da dívida que se aproximam

A dívida pública na Grécia foi a primeira de uma série de bombas que estão prontas a explodir na Europa. Para as nações relutantes a saldar a dívida em euros, as nações credoras tem os seus "músculos" preparados: as agências de rating. Por Michael Hudson

Orçamento federal não é como o das famílias

Já todos ouvimos o argumento dos políticos da austeridade acerca do défice, comparando o orçamento de Estado com o de cada família. Neste artigo, o economista Randall Wray olha para a história económica dos EUA para mostrar que essa é uma comparação sem sentido.