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Alemanha, China e Brasil criticam política dos EUA

Presidente do Federal Reserve dos EUA colhe críticas devido a injecção de dinheiro na economia. Para ministro brasileiro, é "dinheiro que cai de helicóptero". Já ministro alemão adverte que medida criaria mais problemas. Da Deutsche Welle.
Foto de TalkMediaNews

Num artigo publicado no jornal Washington Post, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Ben Bernanke, defendeu a política monetária do Fed contra as duras críticas que vem sofrendo devido aos planos de compra de 600 mil milhões de dólares em títulos públicos.

Segundo Bernanke, a compra de dívidas públicas pode, definitivamente, vir a aquecer a morosa conjuntura norte-americana. "Esse tipo de acção atenuou as condições gerais financeiras no passado e, até agora, ela parece ser sempre eficaz", declarou o chefe do Fed.

Essa não é a opinião, todavia, de autoridades financeiras brasileiras e alemãs. Na quinta-feira 4/11, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, criticou duramente os planos de Bernanke.

"Eu não acho que os americanos conseguirão resolver o problema dessa forma", disse o ministro à emissora alemã ARD. "E acredito que vão criar problemas adicionais para o mundo".

Défices altos não resolvem problemas

O ministro Schäuble explicou que, com base nos êxitos na Alemanha, é possível constatar que os problemas não podem ser resolvidos com défices estatais mais altos. "Essa sempre foi a política conjunta de todos os países industrializados – inclusive a dos EUA". Schäuble lembrou ainda que na cimeira realizada no final de Julho, em Toronto, os países do G20 tinham-se comprometido com tal política.

Para o ministro alemão, o actual curso da política monetária norte-americana não vai tirar o país da crise. "Eles já injectaram uma quantidade infinita de dinheiro na economia". Isso implicou altíssimos défices estatais e os "resultados são desesperadores". O mercado de trabalho dos EUA continua difícil e a economia mal, acrescentou.

No interesse dos Estados Unidos, seria melhor "resolver realmente os problemas" em vez de lançar mão de artifícios que não levam a nenhuma solução, sugeriu Schäuble.

Também o economista-chefe do banco alemão Commerzbank, Jörg Kramer, considera arriscados os planos de Bernanke: "O Fed cria um clima que favorece investimentos de risco". Segundo ele, especialmente países emergentes da Ásia temem que a avalanche de dinheiro possa gerar bolhas nos seus mercados.

Kramer adverte também que a ideia de Bernanke pode dar um impulso significativo aos mercados de matérias-primas. "Com o aumento dos preços do petróleo, quem acabaria pagando o pato seriam especialmente os países com recursos escassos, como a Alemanha e o Japão, mas também os grandes consumidores de petróleo, como a China".

Críticas chinesas

"Se não houver nenhuma restrição à emissão das principais moedas globais, como o dólar dos EUA, a ocorrência de outra crise é inevitável", disse Xia Bin, conselheiro do Banco Popular da China, segundo o jornal Beijing News.

Zhou Xiaochuan, presidente do Banco Popular da China, que é o banco central do país, disse em Pequim que a decisão dos EUA não seria necessariamente "a melhor para o mundo" e que ela poderia causar uma série de impactos negativos à economia mundial.

A questão é especialmente sensível para a China, dada a tensão com Washington sobre o yuan, já que a moeda chinesa é mantida desvalorizada para obter vantagem nas exportações.

Incisivamente, o vice-ministro chinês das Relações Exteriores, Cui Tiankai, principal negociador da China no G20, pediu uma explicação aos EUA. "Seria apropriado se alguém nos desse uma explicação. Caso contrário, a confiança internacional na recuperação e no crescimento da economia global pode ser lesada", disse Cui.

Posição brasileira

Já o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, considerou por sua vez, após reunião ministerial com o presidente Lula nesta quinta-feira, que os planos do Federal Reserve poderão criar uma "bolha".

"Jogar dinheiro de helicóptero na economia não fará brotar o crescimento. Esta política só vai servir para desvalorizar o câmbio e poderá, no futuro, criar uma bolha. O único resultado é desvalorizar o dólar para que tenha uma competitividade maior no comércio internacional", disse Mantega.

Na avaliação do ministro, se os Estados Unidos persistirem nessa política, haverá um excesso de crédito que não deverá ser canalizado para a produção, mas para a especulação.

Tema do G20

Tanto para o Brasil quanto para a Alemanha, o tema será objecto de discussão no encontro de cúpula do G20, que se realizará nos dias 11 e 12 de Novembro, em Seul, na Coreia do Sul.

Durante a reunião de cúpula do grupo que reúne as 20 maiores economias emergentes e industrializadas do planeta, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, pretende abordar o tema de forma crítica em conversas bilaterais com os norte-americanos.

Pelo lado brasileiro, o assunto deverá ser abordado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, que será acompanhado pela presidente eleita, Dilma Rousseff.

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