A Paz é a solução

No dia 24 de fevereiro, forças russas invadiram, sem justificação nem provocação prévia, a Ucrânia. Apenas 3 dias depois, a dia 27 de fevereiro, o regime russo colocou as suas forças nucleares em alerta especial. Encontram-se agora num estado de “pré-combate”, criando as condições legais e operacionais necessárias para a sua utilização.

Provavelmente, esta escalada faz parte da teoria da deterrência. Moscovo pretende, mais do que utilizar as armas, criar a perceção no Ocidente que pondera a sua utilização, causando desta forma medo e incerteza. Mas teorias à parte, esta escalada e ameaça nuclear é totalmente inaceitável.

Aumentou a ansiedade e o sofrimento que todos os civis estão a passar por estes dias, não se restringindo à Ucrânia. Há relatos de verdadeiras corridas a comprimidos de iodo um pouco por toda a Europa, incluindo Portugal. Aproveito para relembrar que não se deve tomar iodo sem prescrição médica, não é uma medicação inócua e necessita de acompanhamento por profissionais de saúde. Sem esquecer que é um medicamento essencial para algumas pessoas, pelo que não devemos esgotar as reservas de iodo disponíveis, privando a medicação de quem mais dela precisa. Por fim, mas não menos importante, as doses necessárias para responder à radiação não são as que se encontram à venda, pelo que em caso de real necessidade, caberá à DGS a sua distribuição.

Apesar de ser consensual que ninguém vence uma guerra nuclear, e como tal não deve ser provocada, tal como foi reafirmado em janeiro deste ano pelos países com maior capacidade nuclear – EUA, Rússia, China, Reino Unido e França - a realidade e a história mostram-nos que, por algumas vezes, o mundo esteve demasiado perto de uma desastrosa guerra nuclear. Os exemplos mais conhecidos, levam-nos para a crise dos mísseis cubanos ou o exercício da NATO Able Archer. Mesmo após a guerra fria e num contexto de paz e boas relações, estes incidentes continuaram a acontecer, como em 1995, quando operadores russos confundiram o lançamento de um satélite científico norueguês com um primeiro ataque nuclear por parte dos EUA.

Quando falamos de armas nucleares, um pequeno erro causado pela ansiedade ou uma cadeia de comando isolada e paranóica, produz consequências sem paralelo na história. Quem defende uma intervenção militar na Ucrânia, como a imposição de uma no fly zone, e quem relativiza os impactos de uma guerra nuclear, ou está pouco informado, ou adotou uma caricatura do Dr Strangelove, do célebre filme do Kubrick.

Cerca de 200 mil pessoas morreram nos 5 meses após Hiroshima e Nagasaki. Os sobreviventes, têm um risco acrescido de vários de tipos de cancro e doença cardiovascular, não podendo ser ignorado todo o trauma psicológico associado. Este risco é bem maior nas crianças, ou seja, quem menos culpa tem da guerra causada pelas elites, é quem mais sofre com a destruição.

Não há um limite seguros para uma escalada deste tipo. Os impactos de uma “pequena” guerra nuclear, com a utilização de 100 ogivas russas e americanas, seria o suficiente para provocar um pequeno inverno nuclear. As poeiras e partículas resultantes das explosões, acumular-se-iam em quantidades suficientes na atmosfera para bloquear a luz solar. Como consequência imediata, teríamos uma enorme quebra na produção agrícola e fome mundial generalizada. Não teríamos um vencedor, apenas um mundo de pobres perdedores.

Temos de trabalhar para uma paz justa e duradoura. Mas este apelo à paz não deve estar dissociado de um julgamento moral: foi a Rússia que agrediu e atacou o seu vizinho. O apelo à paz deve estar associado ao pedido para que as forças russas cessem imediatamente o seu ataque e recuem para o seu território. Enquanto trabalhamos para este fim, é preciso fornecer apoio e auxílio a quem foge da guerra, as principais vítimas e sem qualquer culpa das ambições imperiais russas, e denunciar as várias vozes mais interessadas em escalar o conflito sem pensar nas consequências, que em promover a paz.