José Manuel Pureza

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda

A celebração dos quarenta anos do 25 de Abril será inútil se não fizer da assunção das respostas aos fatores de esvaziamento da democracia o seu propósito essencial.

Entramos numa nova fase da conversão da social-democracia europeia a jogar o jogo do adversário no seu campo e de acordo com as suas regras: até agora, era o campo e eram as regras da direita liberal; com Hollande e com Valls o campo e as regras são as de Marine Le Pen.

Da grande promessa programática de 2011 - empobrecer o País para o "tirar desta situação" -, o Governo cumpriu a parte mais fácil: empobrecer os pobres e trazer para a pobreza os remediados. Aos ricos ajudou a que ficassem mais ricos.

A divergência insanável tão brandida por Seguro para as televisões nunca existiu. Porque é claro que entre os signatários de um Tratado Orçamental que impõe, sob pena de sanções, um défice estrutural de 0,5%, não há divergências insanáveis, há sim convergências assinaláveis.

O pós-troika é a continuação da troika por outros meios. Ou pelos mesmos mas mais fortes.

A disputa da influência sobre o espaço pós-soviético foi, desde 1989, a continuação da guerra (fria) por outros meios. É a vampirização da Ucrânia pelas potências que está em jogo por estes dias.

A diferença assumida, a margem sem arrependimentos nem complexos de inferioridade, a qualificada disputa do cânone- isso fez de Paredes, Paco e Piazzolla referências grandes da nossa humanidade.

A aceitação da Guiné Equatorial mostrará uma CPLP disposta a abdicar da ambição de ter a força da diferença para se tornar um entreposto de negócios legitimadores de poderes políticos autoritários.

É claro que a Suíça - como a França, como os Estados Unidos ou como Portugal - é o que é porque recrutou centenas de milhares de imigrantes quando deles precisou.

O Portugal do pós-troika será evidentemente um país mais pobre e menos apetrechado para responder aos desafios do nosso tempo.