Morrer não é uma opção! - A importância do associativismo sindical
Observamos atualmente um descrédito e insegurança face ao associativismo sindical. Vivemos um período conturbado em que é imperativo uma mudança de paradigma e de filosofia, com o objetivo de envolver os trabalhadores naquelas que são as reivindicações dos seus direitos e deveres, defendidos pela Constituição Portuguesa e os quais os sindicatos devem fazer valer perante os órgãos governamentais.
Por outro lado, são necessárias novas formas de luta e atuações, que respondam não só às necessidades dos trabalhadores, mas dêem igualmente visibilidade social e atenção das massas para os problemas relacionados com determinada classe profissional. Sem que estas formas de reivindicação prejudiquem os utilizadores/utentes dos serviços visados.
Sou profissional de saúde há 30 anos e, durante o meu percurso profissional, como delegado e atualmente como dirigente sindical, tenho observado uma degradação geral das condições laborais. Nomeadamente, contratos precários, desemprego crescente, carreiras pouco atrativas cuja progressão depende de métodos de avaliação de desempenho desajustados e manipuláveis. Tudo em prol de uma sociedade que privilegia o capitalismo liberal, que alimenta a economia paralela e consequentemente “mata” delicadamente o associativismo sindical.
O ano de 2011 apresenta-se como um marco importante que ditou, além da crise económica nacional, uma crise no associativismo sindical. Portugal encontrava-se débil financeiramente e a necessitar de ajuda externa, o que ditou um aumento da dívida pública portuguesa ao estrangeiro.
Ora, perante o estado moribundo da economia portuguesa e a entrada da Troika no país, os trabalhadores viram muitos dos seus direitos violados ou até mesmo abolidos. Isto traduziu-se numa perda de dias de férias, feriados, subsídios de férias e de Natal, congelamento das carreiras, aumento da carga horária sem o devido aumento proporcional do ordenado, agravados pelo pagamento de uma sobretaxa, que condenava a população a uma redução importante do seu poder de compra.
O clima de incerteza e precariedade reinava na sociedade e qualquer ação tida pelos sindicatos no sentido de ver repostos os direitos das pessoas, era condenada pelas entidades governamentais e pela própria sociedade no geral, por medo de serem despedidas ou que lhes fossem retiradas algumas das poucas regalias que ainda restavam. Mas a verdade é que, 10 anos após esta crise se ter instalado, ainda hoje os sindicatos lutam pela reposição de alguns destes direitos que foram corrompidos nessa altura.
Mesmo após o reerguer da condição económica do país, o governo, que se diz democrático, manteve-se como um dos maiores obstáculos à intervenção sindical. Perante os movimentos de luta propostos pelos sindicatos, eram decretadas requisições civis, suspensões unilaterais das negociações e imposição de carreiras sem acordo por parte do sindicato, o que vergou a crença dos trabalhadores nas atividades sindicais.
No final de 2019, o mundo foi “atacado” por um inimigo invisível que coloca novamente sindicatos e trabalhadores em fronteiras diferentes. Em plena pandemia muitos trabalhadores são afastados dos seus locais de trabalho, há um condicionamento da entrada dos sindicatos nos locais de trabalho e o distanciamento entre trabalhadores e sindicatos fica ainda mais evidente, obrigando a uma reinvenção destes na forma de acederem aos trabalhadores e compreenderem as suas necessidades perante esta nova realidade.
Assistimos, tristemente, a um lento afastamento entre as entidades governamentais e sindicais, sob subterfúgios, quer sejam por suposto prejuízo do interesse público, quer por estados de emergência aos quais esta pandemia nos têm habituado. Estados que ditam o adiamento de reuniões, prolongamento das negociações sem que haja um consenso, carreiras impostas e injustas tendo em conta a literacia profissonal, e que podem parecer, aos “olhos da sociedade”, como ineficiência dos sindicatos na luta pelos seus sindicalizados.
Entrámos num círculo vicioso, em que os sindicatos são condenados por pedir aumentos salariais e melhorias das condições de trabalho, supostamente colocando o país em esforço financeiro, em que os ganhos obtidos são residuais, e que, consequentemente, colocam o país numa posição ainda mais precária, ao ver a sua mão-de-obra extremamente qualificada optar por emigrar para outros países que valorizam e dignificam os seus trabalhadores.
Esta falta de entendimento e inatividade governamental perante as necessidades dos trabalhadores fomenta a criação de “sindicatos cogumelos” e forças inorgânicas desestruturadas. Estas, apesar de alimentarem expectativas, ainda que irrealistas, apresentam grande adesão inicial, criando protestos momentâneos, que desequilibram a paz social, com ganhos nulos e acabam por enfraquecer o sindicalismo, colocando “todos no mesmo saco” ineficiente e fugaz.
O sindicalismo é fundamental na luta pelos direitos dos trabalhadores, zelando pelo seu bem-estar e consequente produtividade em ambiente profissional. Desistir não faz parte do vocabulário de um sindicalista como eu.