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Xeque ao Rei

Juan Carlos de Bourbon não é a maçã que apodreceu, é o exemplo maior de uma casta que deve ser combatida.

A queda de um anjo. Assim se resume a última década de Juan Carlos de Bourbon, rei emérito espanhol. Caiu do pedestal da transição espanhola, onde era aclamado pela elite que se manteve intocada, para o lamaçal da corrupção. A decadência moral da monarquia ilustrada no seu expoente máximo.

Estamos perante um escândalo de Estado. Um rei que se transformou num facilitador de negócios, cobrando comissões milionárias que depois escondia do fisco através de paraísos fiscais e testas de ferro. Foi isso que se descobriu quando uma ex-namorada de Juan Carlos de Bourbon se descaiu em conversas onde explicava a forma de atuação do monarca. O conhecimento era profundo, dado que ela detinha em nome próprio propriedades em Marrocos e noutros lugares que, na verdade, eram detidas pelo rei emérito. Na sua descrição, Corinna Larsen exemplificava como o negócio de uma linha férrea de alta velocidade, construída na Arábia Saudita por empresas espanholas, levou ao pagamento de 100 milhões de dólares (cerca de 65 milhões de euros) a Juan Carlos de Bourbon.

Apesar do patriotismo, Juan Carlos preferiu receber o pagamento dos 100 milhões de dólares numa conta bancária na Suíça. Depois de um período de pousio, o dinheiro passou para a conta bancária de Corinna Larsen, tendo esta assinado um contrato onde garantia que, em caso de morte, os seus herdeiros não teriam direito ao dinheiro. Esconder o dinheiro sem nunca lhe perder o rasto, o monarca mostrava conhecimento dos esquemas de lavagem de dinheiro. Quando esta informação veio a público, começou a investigação judicial que ainda decorre sobre suspeita de tráfico de influências, corrupção e branqueamento de capitais.

Caído em desgraça, o rei está agora em fuga. Precavendo-se para todas as eventualidades, Juan Carlos de Bourbon quis pôr-se a salvo da investigação judicial e fugiu de Espanha, não se sabendo onde se encontra atualmente. As apostas dividem-se entre Portugal ou as Caraíbas. O certo é que saiu de mansinho pela porta dos fundos. 39 anos de reinado para um canto de cisne tão desafinado.

Alguns querem agora evitar a queda do dominó, que o cheque que expôs o rei não se transforme no xeque-mate da monarquia. Para isso, pedem que nos lembremos de Juan Carlos pelo que foi, não pelo que é. O artífice da transição espanhola não deve ser confundido com o imoral caçador de elefantes e o corrupto real, dizem. Querem impingir-nos um estranho caso de Dr. Jekyll do passado e um Sr. Hyde do presente, como se ambos não fossem parte de uma mesma moeda ou a lua não tivesse um lado oculto. Na verdade, esta discussão não é sobre o rei, é sobre o regime.

Artigo publicado no jornal “Público” a 7 de agosto de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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