A votação na extrema-direita no Algarve e o caminho a seguir

porJoão Vasconcelos

23 de março 2024 - 12:51
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Mais de 70% da população do Algarve vive do turismo, restauração e atividades conexas. O modelo de desenvolvimento económico regional assenta na monocultura do turismo de sol e praia, da responsabilidade de PS e PSD, com base no trabalho sazonal e precário e na especulação imobiliária.

Nas últimas eleições legislativas de 10 de março verificou-se uma colossal viragem à direita no panorama nacional, com a extrema-direita a atingir resultados nunca antes conseguidos. A extrema-direita populista, xenófoba, racista e neofascista chegou mais tarde, mas também chegou a Portugal. Em diversos países da Europa já se alcandorou no poder e noutros ameaça, seriamente, lá chegar, como na França e na Alemanha. As restrições à liberdade e aos direitos civis nesses países são já uma negra realidade.

Se o grande derrotado foi o PS, o grande vencedor foi o Chega e no Algarve assume-se como a primeira força política, ficando à frente nos concelhos de Albufeira, Loulé, Portimão, Olhão, Lagoa e Silves e em muitos outros quase conseguindo o primeiro lugar.

No Algarve, relativamente a 2022, houve menos 10% de abstenção, ou seja, votaram mais 41.000 eleitores. Quase todos os partidos aumentaram de votação, exceto o PS que perdeu 17.000 votos e a CDU, com menos 1.800 votos. O Chega conseguiu mais 40.000 votos, passando de 12,3 para 27,2% (de 24.000 para 64.000 votos), indo buscar grande parte da votação ao PS, à abstenção e aos novos eleitores. Já antes tinha feito estragos no PSD e esvaziado o CDS/PP. É provável que também tenha captado votos na área da esquerda, votos menos ideológicos de pessoas descontentes e revoltadas com as dificuldades em que se encontram.

O crescimento do Chega no Algarve tem a ver com questões gerais e com aspetos mais específicos, próprios da região. A nível nacional, as pessoas acreditaram em André Ventura, um demagogo populista nato, que vem do PSD e que nos tempos da troika nem um dedo levantou e achou muito bem todas as medidas terroristas de caráter social que se abateram, dramaticamente, sobre os trabalhadores e o povo português, sob a ação impiedosa do governo PSD/CDS. Os eleitores acharam graça e acreditaram nas arruaças que André Ventura tem feito na Assembleia da República, no histerismo odioso aos imigrantes e às comunidades ciganas, na gritaria contra a corrupção e nas promessas de dar tudo a todos, sem fazer contas. Por outro lado, André Ventura e o Chega dominam nas redes sociais, seguindo os métodos trumpistas e bolsonaristas de fake news e outras atoardas, enchendo as cabeças dos jovens e de outros seguidores das redes.

Os dois principais partidos, PS e PSD, são os grandes responsáveis pelo crescimento do Chega. E muito em particular o PS, que tem governado o país nos últimos 8 anos, tem sido um forte alimento do Chega. A corrupção que envolve milhões tem alastrado, a inflação castiga as pessoas, o SNS tem primado pela degradação acentuada e os utentes desesperam horas e horas nas urgências e esperam meses e até anos por uma consulta, ou por uma cirurgia, e a falta de habitação para os jovens e outras pessoas viverem transformou-se numa autêntica chaga social. A área da educação, se foi destratada pelo PSD, foi arrasada pelos governos do PS e os professores e outros profissionais da educação não esquecem, daí as lutas históricas que têm travado. A pobreza tem alastrado, as reformas e os salários são baixos, o que faz com que milhões de portugueses vivam com muitas dificuldades. Os pequenos empresários são sobrecarregados com uma elevada carga fiscal. Por sua vez os mais ricos continuam cada vez mais ricos. Isto passa-se a nível nacional e também no Algarve.

Mas o Algarve tem outras particularidades. Mais de 70% da sua população vive do turismo, restauração e atividades conexas. O modelo de desenvolvimento económico regional assenta na monocultura do turismo de sol e praia, da responsabilidade de PS e PSD, com base no trabalho sazonal e precário, em salários baixos, em ritmos de trabalho intensivo e na especulação imobiliária. Na época da Covid o Algarve foi a região onde a crise social mais se agravou, por força do seu modelo de desenvolvimento económico e social. Nas autárquicas de 2021 e nas legislativas de 2022 foi precisamente no Algarve que o Chega atingiu valores elevados e, muito em particular, nos concelhos fortemente turísticos, como Albufeira, Loulé e Portimão. A crise social e económica favorece o Chega.

O Algarve comporta outras especificidades, o que contribui para a revolta das suas populações. Só para elencar mais algumas temos as criminosas portagens na Via do Infante, a falta de requalificação de parte da EN 125 que dura há longos anos, as promessas sempre adiadas da construção do Hospital Central do Algarve e os problemas da seca e da falta de água. Os governos PS foram os grandes responsáveis pelas promessas não cumpridas e pelos investimentos sempre adiados.

O Bloco de Esquerda, apesar de ter feito uma campanha forte e determinada, revelou-se incapaz de captar o descontentamento e a revolta dos eleitores, de recuperar o seu eleitorado de 2015 e 2019. A marca dos tempos da “geringonça”, de acordo com o PS, ainda continua a ter muito peso no consciente das pessoas, um PS que, nos tempos que correm, deixou o país à beira do caos e houve quem se aproveitasse do caos.

Todavia, o Bloco resistiu e continuará a ser um marco de resistência no Algarve e por todo o país. O Bloco tem condições para se afirmar e liderar a oposição à esquerda, contra a direita e a extrema-direita. No Parlamento e principalmente na rua, modernizando e lutando pelo seu programa, ao serviço das populações, afirmando as suas bandeiras próprias e primando, sempre que necessário, pelas convergências possíveis e necessárias à esquerda.

João Vasconcelos
Sobre o/a autor(a)

João Vasconcelos

Professor. Mestre em História Contemporânea.
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