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Virar o Porto ao contrário

Os Cavaquistas e alguns socialistas gostariam de ver Rui Rio à frente do país. Mas vou contar-vos o que se passou na minha cidade durante estes tempos.

Os Cavaquistas e alguns socialistas gostariam de ver Rui Rio à frente do país. António Costa, por exemplo, não perde uma ocasião para eventos mediáticos em conjunto. O edil surge com uma aura de integridade à prova de bala. Mas vou contar-vos o que se passou na minha cidade durante estes tempos.

O Porto viveu 12 anos de gestão de uma direita autoritária e arrogante. Uma direita que perseguiu os pobres, demolindo um bairro à bomba para instalar um condomínio de luxo a soldo de um fundo imobiliário obscuro; que utilizou a polícia municipal para maltratar e prender arrumadores; que expulsou idosas das casas de habitação social porque não entregaram certos requerimentos e que reabilitou um decreto fascista de 1945 para impor “regras de bom comportamento” nos bairros.

Uma direita que hostilizou a cultura; recusou apoio à feira do livro que este ano, pela primeira vez, não se realiza no Porto; que negou o nome José Saramago para uma rua da cidade; que entregou o teatro municipal ao negócio de La Féria (que faliu, deixou dívidas e abandonou o equipamento!).

Uma direita que proibiu a afixação de propaganda política; que instituiu “brigadas” contra os graffiti (confundindo formas de expressão artística que embelezam locais outrora sujos, abandonados e degradados com os tags ou as inscrições soltas em monumentos ou edifícios); que perseguiu, entre outros, os jornalistas David Pontes (ex-JN) e Amílcar Correia (Público), por terem ousado manifestar opinião contrária à do soberano edil; que pressionou direta e sistematicamente Pinto Balsemão para “refrear” a redação da SIC no Porto; que, através do então Ministro Morais Sarmento, “normalizou” a RTP Porto; que gasta rios de dinheiro em revistas e écrans espalhados pela cidade numa espécie de imitação do discurso norte-coreano sobre as virtudes do regime

Uma direita despesista nas corridas de automóveis da Boavista e virada para a reabilitação urbana como negócio e cenário de “charme” para uma cidade que expulsa pobres, jovens e idosos.

Durante estes doze anos o Bloco de Esquerda levantou corajosamente a sua voz na assembleia municipal, onde tem três deputados fortemente animados pelo espírito sempre atento e combativo do José Castro.

Mas outras vozes se fizeram ouvir: na escola da Fontinha, no combate contra a usurpação do Rivoli, na preservação do parque da cidade da fúria imobiliária e na defesa dos jardins do Palácio de Cristal ou dos mercados do Bolhão e Bom Sucesso

Algumas dessas vozes e causas estão agora unidas na candidatura do BE, encabeçada por José Soeiro e Ana Luísa Amaral, unindo algumas pessoas de movimentos cidadãos, num processo de respeito pela diversidade de formas de participação, linguagens e protagonismos. Não é um processo fácil, porque se pretende autêntico e desafiador de rotinas. Mas é uma esperança que viverá para além das autárquicas.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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