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Violência contras as mulheres: entre o ruído mediático e o silêncio da ocultação

Num recente caso mediático, a cobertura da comunicação social permite o debate público sobre a violência doméstica e revela como os agressores podem usar os média para revitimizar as mulheres. Na maioria dos casos de violência contra as mulheres o silêncio mediático é ensurdecedor.

A batalha contra o silêncio e a indiferença com que a violência contra as mulheres é votada na sociedade é um tema recorrente. Excetuando algumas campanhas promovidas pelos organismos públicos e pelas organizações não governamentais, a violência contra as mulheres é muitas vezes silenciada e ocultada.

Quando a situação de violência contra as mulheres é um acontecimento que envolve ‘pessoas de elite’ ou é uma situação de tal modo negativa ou cruel, como por exemplo situações de femicídio, é provável que assuma um valor-notícia1que lhe permita entrar no fluxo da comunicação social.

A recente denúncia de violência doméstica pela apresentadora de televisão Bárbara Guimarães e o relato de factos semelhantes pela primeira mulher de Manuel Maria Carrilho tem tido grande eco na comunicação social. Contudo tem também dado espaço a reportagens e comentários do acusado que roçam a misoginia.

A culpa e os factos terão de ser apurados pelas instâncias próprias mas é inaceitável que se dê relevo a uma defesa pública que se resume à revelação de detalhes da vida das vítimas, com o intuito de denegrir a sua imagem e de as fragilizar perante a sociedade. O consumo de álcool ou perturbações psicológicas por parte de um elemento de um casal pode ser justa causa para um pedido de divórcio, mas não pode ser justificação, nem atenuante, para a prática do crime de violência contra as mulheres.

Se no recente caso mediático, que envolve figuras públicas da praça portuguesa, a cobertura pelos órgãos de comunicação social permite o debate público sobre a violência doméstica e revela como os agressores podem usar os média para revitimizar as mulheres, na maioria dos casos de violência contra as mulheres o silêncio mediático é ensurdecedor.

No passado dia 14 de Outubro, dez mulheres da associação Ve-la luz (asociacionvelaluz.es), na Galiza, iniciaram uma greve de fome para denunciar os cortes nos apoios públicos às mulheres e crianças vítimas de violência doméstica e para reivindicar alterações às imposições legais a que as vítimas ficam sujeitas. A sua luta não tem sido noticiada e para além de outras razões, Glória Vázquez, representante da associação, afirma que o facto destas mulheres serem sujeito da notícia e não o objeto enquanto vítimas, é uma das razões para o silêncio dos média. Glória destaca também a importância de serem as próprias vítimas as agentes deste protesto e de como é importante que sejam elas a tomar a dianteira na defesa dos seus interesses.

A violência doméstica é um crime público e se é fundamental a intervenção das organizações não governamentais e das mulheres é urgente que nós, enquanto sociedade, expressemos a nossa indignação coletiva contra a violência e o silenciamento.


1 Conceito trabalhado por Johan Galtung e Mary Holmboe Ruge, na obra “A Estrutura do Noticiário Estrangeiro”, de1993, relativamente às características que fazem um notícia entrar no circuito/fluxo da comunicação social.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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