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Ventosa

Podemos falar de combate aos incêndios, podemos até falar de prevenção de fogos florestais mas se nada fizermos para ocupar e aproveitar o território tudo será em vão.

Ventosa é uma freguesia rural, no Município de Vouzela em Lafões. Das minhas primeiras memórias de Ventosa salta a lembrança infantil de uma queijeira, que vendia porta a porta requeijões em S. Pedro do Sul. Tinha então consciência que vinha de longe, atendendo às distâncias de uma criança de 7 anos e às vias de comunicação de então.

Mais tarde, vivi 7 anos em Ventosa e ainda hoje as minhas filhas lá vivem (aliás de Ventosa são naturais), com a Mãe. Do tempo que passei em Ventosa recordo uma freguesia envelhecida, dispersa por várias localidades, a saber Adsamo, Joana Martins, Ventosa, Sobreira, Quintela, Moitedo, Igreja, Gândara, Corujeira, Figueiras, Quinta do Prado, Picoto, Aguieira, Ansara, Covêlo, Casal de Auzenda, Sacorelhe, Casal Bom, Vila Nova e Silvite e a ver a sua população diminuir.

Em 2011, e de acordo com os Censos, para uma área de 18,21 km 2, havia um total de 794 habitantes (eram 921 em 2001 e 1501 em 1930), número certamente reduzido pela morte dos mais velhos (a população com mais de 65 anos representava 31,5% da população em 2011, face a 28,2% em 2001) e pela partida dos mais novos (a população com 24 anos ou menos representava 18,9% em 2011 face a 24,6% em 2001).

Ventosa tinha então – e ainda vai tendo – uma vida própria, marcada pelos ritmos da ruralidade e pelas habituais disputas relativas à administração de baldios, da freguesia e da paróquia, muitas vezes objecto de discussão no Café Santo António, centro de vida social da freguesia, pertença do Primo Celestino e da Prima Celeste. Discussões por vezes bravas, com Homens de “barba rija”, sendo a barba em sentido figurado e em sentido real e também com a participação de Mulheres de têmpera. E deixem-me que vos diga, nas vestes de Deputado eleito à Assembleia Municipal de Lisboa: estas discussões são tão importantes e dignas como a discussão do PDM de Lisboa ou da estratégia para o turismo ou para as políticas de habitação e transportes de Lisboa. Desvalorizar estes assuntos de Ventosa é desvalorizar e menosprezar uma parte importante do País, porventura esquecida e menos visível.

O Agostinho (então Presidente da Junta de Freguesia), o Fernando (que havia sido meu professor de Filosofia e tal como eu tinha “aterrado” em Ventosa), o Manel (um industrial da metalomecânica de grande mérito), o Primo Celestino, a Lisete (mulher do Agostinho e Senhora de grande firmeza na defesa dos seus pontos de vista), o Manel Alves (entretanto falecido, homem da terra, madeireiro e proprietário de um alambique, sempre capaz de dar as respostas mais desconcertantes) ou o Luís da Pantanha (que mora em Lisboa, mas nas suas estadas alimentava as discussões), apenas para citar alguns, somam entre todos um entusiástico amor a Ventosa, ainda que com as suas divergências.

Mas por muito que seja o empenho, Ventosa, e como Ventosa, muitas aldeias do interior vão definhando, perdendo população e dinâmica. Adormecem lentamente no abandono inconsciente (pelo menos assim o espero) a que os decisores de um País urbanizado e litoralizado, focado no peso eleitoral das grandes urbes vai votando Ventosa e uma plêiade de outras aldeias na mesma circunstância.

Os incêndios de Domingo são, sobretudo, uma consequência de um interior que se desertifica, do abandono agrícola e florestal e da ausência de políticas que travem o ermamento da maioria do nosso território. Podemos falar de combate aos incêndios, podemos até falar de prevenção de fogos florestais mas se nada fizermos para ocupar e aproveitar o território tudo será em vão. O paulatino encerramento de serviços públicos, para não falar em serviços novos que garantam maior qualidade de vida às populações, a ausência de políticas agrícolas e florestais eficazes encerram em si mesmo a dinâmica que desenvolve um círculo vicioso de desertificação e abandono rural.

Entretanto Ventosa ardeu. Literalmente. Conheço o Povo de Ventosa e sei que são “rijos”. Sei que chorados os mortos farão o que têm a fazer e sempre fizeram: resistir até que as forças lhes faltem. Sei que levantarão as vossas casas e que tratarão dos vossos pertences e das vossas florestas. Também sei que o poderão fazer sozinhos, como sempre fizeram orgulhosamente, na omissão de apoios do poder central. Mas até quando teremos gente suficiente em Ventosa? Até quando resistirão estes meus bons amigos e outros que venham? Até quando suportarão o abandono e a indiferença ditada por estatísticas e políticas financeiras que poderiam sair de um mero cálculo matemático?

Cabe ao País responder e assumir o encargo de reverter esta realidade. Urge entender a ocupação do território nacional, no seu todo, como uma dimensão estratégica e imprescindível ao desenvolvimento e à segurança do País.

Para todos e todas em Ventosa um abraço muito sentido. Quero que saibam que a vossa dor é também a minha dor. E que convosco resistirei a este estado de coisas. Trago-vos sempre comigo.

Sobre o/a autor(a)

Advogado, ex-vereador a deputado municipal em S. Pedro do Sul, mandatário da candidatura e candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Lisboa nas autárquicas 2017. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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