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Vão continuar a falar-nos em empate técnico?

Não devemos nunca subestimar os adversários, mas parece óbvio que esta última semana destruiu os alicerces da narrativa do “empate técnico”. A direita vai perder.

A capa desta quarta-feira do jornal Público, onde se dá a conhecer a carta que Passos Coelho endereçou a José Sócrates em 2011, dando-lhe a conhecer o apoio do PSD à intervenção da Troika, não traz nenhuma novidade. Quem tenha estado atento aos desenvolvimentos históricos ocorridos entre o início da 2.ª campanha presidencial de Cavaco Silva (final de 2010) e a assinatura do memorando de entendimento com a Troika (Maio de 2011, a poucas semanas das eleições de 5 de Junho), e, mais que isso, quem assuma uma posição séria e honesta na análise desses acontecimentos sabe bem quem foram os responsáveis pela vinda da Troika para Portugal: o PS, que de PEC em PEC foi cumprindo todas as ordens de Merkel até o seu governo atingir uma situação de absoluta insustentabilidade política, financeira, económica e social; e PSD CDS, sabiamente liderados por Cavaco Silva, que, em nome do “interesse de Portugal” (que mais não era que o seu próprio interesse), foram "preparando a cama" do PS com o seu apoio (no caso do CDS com a sua abstenção… violenta?) aos sucessivos PEC´s. Toda a gente sabe que a única coisa que mudou com o PECIV foi o sentido de voto do PSD (e não a atuação de PCP e BE, que foram contra todos os PECs): se até aí os planos de austeridade tinham merecido o voto favorável, depois da Manifestação do 12 de Março, do discurso de tomada de posse de Cavaco Silva e da degradação financeira a que os sucessivos PEC s levaram o país, a direita percebeu que aquela era a sua oportunidade de tomar o poder. E fê-lo, admitamo-lo, com mestria.

Mas a capa do Público é relevante por um motivo. É que ela confirma a inversão de tendência da campanha eleitoral, com os holofotes das críticas dos jornais, dos comentadores, das redes sociais, etc. dirigidos agora à coligação de direita e não a António Costa e ao PS. Para essa inversão contribuíram, como é óbvio, os debates televisivos, onde Catarina Martins (com Paulo Portas e Passos Coelho) e António Costa (com o primeiro-ministro), assumiram uma postura agressiva, de confrontação e de “ajuste de contas” com os seus oponentes, tal como o exigia, aliás, a vox populi. Desde a realização desses debates que a realidade da coligação se alterou. O sorriso cínico, próprio de quem se achava capaz de vencer estas eleições depois de todo o mal feito aos portugueses, deu lugar ao desespero, com o Passos Coelho, chefe de governo, a prometer o patrocínio de uma petição pública para ajudar os lesados do BES. Se até aos debates a caravana de campanha da coligação podia exibir o seu sorriso cínico com relativa tranquilidade pelos poucos espaços públicos que percorria, depois deles a revolta surda das vítimas deste governo deu lugar ao confronto aberto e à vontade de ajuste de contas direto com os membros do governo: veja-se o que se passou em Braga e o que acontece sempre que Passos Coelho é abordado por alguém na rua.

A direita está a ser vergada nesta pré-campanha eleitoral e sabe bem que não tem tempo, nem condições políticas para inverter a tendência que os debates impuseram. Só isso, aliás, pode explicar as recentes declarações de Paulo Portas sobre as mulheres dizendo, bafientamente, que elas "sabem que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos”. Sabemos onde Portas pretende chegar: o governo está isolado, sem capacidade e sem condições de alargar os seus sectores de apoio, pelo que mais não resta do que acirrar os seus indefetíveis, os sectores mais conservadores da sociedade, e com eles ir resistindo.

Não devemos nunca subestimar os adversários, mas parece óbvio que esta última semana destruiu os alicerces da narrativa do “empate técnico”. A direita vai perder. Não está sequer em condições de disputar a vitória. Está, pelo contrário, a lutar para perder por poucos. O que está agora em causa é saber o que valerá o PS, por um lado, e o que valerão PCP e BE, por outro. Uma coisa é certa: quanto mais reforçados forem os segundos, mais probabilidades teremos de ter um governo de esquerda em Portugal depois de 4 de Outubro.

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