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Vamos aprender a lição?

É hoje óbvio que a pandemia afectou as pessoas de forma diferenciada e que não “estamos todos no mesmo barco”. Porque é que isso acontece e quem são os principais responsáveis por esta desigualdade nos impactos desta crise?

É hoje óbvio que a pandemia afectou as pessoas de forma diferenciada e que, ao contrário do que ingénua ou perversamente se afirmou no início, não “estamos todos no mesmo barco”. Mas será assim tão óbvio porque é que isso acontece e quem são os principais responsáveis por esta desigualdade nos impactos desta crise?

A pandemia sublinhou as nossas fragilidades. A pobreza e a desigualdade são problemas crónicos, porque são parte integrante do modelo económico que perseguimos, das formas de trabalho que escolhemos, dos salários que pagamos e da protecção social que disponibilizamos. Os invisíveis ficaram de repente mais visíveis? Alguns. E isso causou-nos perplexidade? Em alguns casos, como o das Estruturas Residenciais para Idosos, sim, nos restantes é apenas o normal - o tal normal a que querem que regressemos. Afinal quem ficou mais exposto ao vírus? Quem melhor se pôde proteger? Quem conseguiu manter o emprego? Quem conseguiu teletrabalhar sem problemas? Quem conseguiu ter aulas on-line com sucesso? Quem conseguiu pagar as contas? Quem conseguiu encontrar uma habitação mais acessível? Quem conseguiu encontrar uma habitação qualquer que fosse? Conseguimos enfrentar a pandemia e reduzir a gravidade do seu impacto? Talvez, mas, uma vez mais, de forma desigual. E poderia ser de outra forma? Nas actuais circunstâncias, lamento, mas não.

E o que estamos capazes, de fazer com esta constatação? Reduzir os riscos para os mais vulneráveis, sobretudo se esses riscos ameaçarem o nosso bem-estar? Continuar numa lógica de “acolchoamento” da pobreza? Apoiar as vítimas mais directas da crise e deixar abandonado quem - parece - nunca merece mais do que esmola? Poderá um crescimento económico saudável, de bem-estar e democrático fazer-se à custa de manter à margem e na pobreza uma parte considerável dos cidadãos? Até onde pensamos ser possível prosseguir, sem pôr definitivamente em causa a democracia, esta continuada cavalgada contra uma parte considerável dos cidadãos?

O que podemos fazer para iniciar uma mudança? É urgente privilegiar, para além do poder político, a voz dos cidadãos que podem e devem participar na identificação colectiva dos problemas e construção das soluções. E, definitivamente, entender a luta contra a pobreza como condição fundamental de desenvolvimento local.

Será que depois de mais esta dolorosa prova de como estamos errados vamos mudar de rumo? Será que é desta que seremos capazes de desenhar, de forma colectiva e co-responsável, um plano municipal de combate à pobreza? Se não formos é porque não queremos. E nisso eu não quero acreditar.

Artigo publicado no Jornal da Câmara Municipal do Porto

Sobre o/a autor(a)

Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara do Porto. Sociólogo, consultor e perito nas áreas da pobreza, exclusão e políticas sociais. Atualmente, é assessor parlamentar no Parlamento Europeu
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