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Toda a envolvência do anúncio do PEC 4 foi simplesmente desastrosa para o governo. Pior momento e pior forma de o fazer seriam difíceis.

Para além da triste substância que o PEC 4 encerra, torna-se particularmente interessante analisar o que rodeou o seu anúncio. Recapitulemos então: foi anunciado poucos dias depois do embaraçoso encontro com Merkel, um dia depois do chumbo da moção de censura e na véspera de uma manifestação que, pela mediatização que então merecia, se adivinhava grande. Como se tal não bastasse, o anúncio aconteceu sem informar o Presidente da República, sem assegurar qualquer acordo com o PSD (o parceiro privilegiado nestes processos), quanto mais qualquer articulação com os parceiros sociais. A cereja em cima do bolo deste insólito foi o facto de tal ter sido o culminar de duas semanas de trabalhos de técnicos das instituições europeias.

Ou seja, toda a envolvência do anúncio do PEC 4 foi simplesmente desastrosa para o governo. Pior momento e pior forma de o fazer seriam difíceis. Mas como se justifica então tal façanha? Pura distracção? O actual Executivo pode ter habituado os portugueses a muita coisa, mas as trapalhadas e os acasos estão longe de ser o prato forte do primeiro-ministro. Pelo contrário, a sua persistência e as sete vidas que demonstra ter devem-se também a uma impressionante habilidade política. A uma forte capacidade de resistir e de emergir do caos já depois de lhe terem sido passados inúmeros certificados de óbito político.

Daí que aquilo que podia ser à primeira vista considerado como uma imprudência política deva, pelo contrário, ser encarado agora como uma jogada. Arriscada, sem dúvida, mas pensada. Com o seu comportamento kamikaze, o Governo antecipou-se ao PSD, obrigando-o agora a uma situação limite em que terá de escolher ficar com o ónus de criar uma crise política ou apoiar pela quarta vez o Executivo que tenta substituir.

Depois de um mês em que se veiculou fortemente o tacticismo vil e irresponsável da moção de censura do Bloco, eis um exemplo claro em como a táctica política está viva e de boa saúde no seio do actual Executivo. É o tudo ou nada, suportado por um discurso do tipo “ou eu, ou o caos”, paradoxalmente assente numa mensagem de suposta responsabilidade. Sócrates sabe bem que, dado o momento difícil, manter a iniciativa do seu lado é uma vantagem a não desperdiçar. Não tem naturalmente a certeza sobre como terminará o jogo, mas sabe que colocar as coisas nos termos em que colocou favorece-o qualquer que seja o desfecho.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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