Este domingo realizou-se a segunda volta das primárias italianas "del centrosinistra... del centrocentrosinistra". Refiro-me às primárias do Partido Democrático e cito Nanni Moretti falando ao seu filho Pietro, no filme Aprile (Nanni Moretti, 1998), contando-lhe que vai fazer um documentário sobre a campanha eleitoral da direita e a campanha da "esquerda", aliás "centro-esquerda", aliás "centro-centroesquerda".
Nesta batalha centrista, Pier Luigi Bersani venceu Matteo Renzi. O atual líder do partido e vencedor das primárias será o candidato a primeiro-ministro pelo PD às legislativas de 2013, a realizar na primavera. Fica o registo de uma verdadeira disputa ideologicamente cirúrgica entre o centro-centroesquerda e o centro-centro-centro. O primeiro, o experiente Bersani (vencedor), quer uma coligação centrista. O outro, o jovem Renzi, queria o centrismo de um só partido, que seguiria o “reformismo” que o primeiro-ministro Monti deixa “incompleto”.
O pretexto destas observações, o atual Partido Democrático (produto de longa degenerescência do extinto Partido Comunista Italiano pela via do “sucessor” Partito Democratico della Sinistra) é hoje mais estranho do que quando lhe chamaram “La Cosa” (Nanni Moretti, 1990). De centrismo em recentrismo, aguçam-se as contradições. Na “Coisa” resta (ainda!) uma esquerda sindical que coabita com uma forte ala pró-austeridade. E é Bersani quem faz as pontes, sendo que a gravidade segue “inevitavelmente” ao centro, a caminho da direita.
Bersani, unindo melhor as contradições de “La Cosa”, é (tal como Rizi seria) a garantia do rumo para lado nenhum, de uma mera alternância entre a “austeridade do centro” e a “austeridade da direita”. Ou seja, por tais caminhos, é feita a sequela austera e sequência lógica que ia de Berlusconi para Prodi e de Prodi para Berlusconi.
E é no meio desta coisa nenhuma que já sentimos falta de perguntar: onde está a esquerda? É uma pergunta legítima para quem não se perde no desespero que, no filme (1998), fez passar Moretti de um “D'Alema dì una cosa di sinistra” imediatamente a “Dì una cosa anche non di sinistra, di civiltà”1. Quem vive o “tempo de ser exigente”, sabe que desde que a esquerda italiana foi varrida do parlamento e do senado, devido à desastrosa participação do Partido da Refundação Comunista (PRC) e do Partido dos Comunistas Italianos (PdCI) no governo anti-social e belicista de Prodi, a busca da alternativa é tarefa dura.
Sabemos também que o progresso civilizatório conquistado pelo movimento das trabalhadoras e dos trabalhadores só se defende e só avança rejeitando o desespero imediatista. A responsabilidade do momento exige uma mobilização social que encontre confiança à esquerda. É por isso que a recomposição da esquerda italiana é fundamental e são de saudar esforços como o da Federazione della Sinistra (a coligação que une PRC, PdCI e outras formações de esquerda) com a certeza que um renascimento das cinzas só se faz aprendendo com a história do incêndio.
1 “D'Alema, diz uma coisa de esquerda. Diz uma coisa ainda que não seja de esquerda, de civilização”. Aprile (Nanni Moretti, 1998) http://youtu.be/zOVg4qwrugU