Uma raiva a crescer-te nos dentes

porRebeca Moore

26 de dezembro 2025 - 14:25
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Nada é inevitável: nem o pacote laboral, nem o crescimento da extrema-direita, nem mesmo o recuo da esquerda. O sucesso da greve, expresso na paralisação do país e na raiva transformada em força, abriu uma janela de oportunidade. E agora, onde cabe essa raiva que nos cresce nos dentes?

A greve geral de 11 de dezembro não caiu do céu - foi um encontro de múltiplos descontentamentos. Esta greve foi, antes de mais, um grito contra a resignação. Contra o pacote laboral que nos precariza, contra a vida que se torna mais dura mês após mês com o custo da casa e dos bens essenciais, e contra a narrativa de que nada se pode fazer. O que se sentiu nos setores que pararam – do privado aos serviços essenciais – foi a rejeição não só do que está por vir, mas da degradação já presente.

A mobilização - da greve e das manifestações - demonstrou uma capacidade de paralisação para lá do setor público, assumindo-se como confronto político com este governo. Dia 11 de dezembro confirmámos que a oposição a esta política é poderosa e surpreendente. O descontentamento atravessa a sociedade e alcança até a base eleitoral do governo e dos seus apoiantes.

Nada é inevitável: nem o pacote laboral, nem o crescimento da extrema-direita, nem mesmo o recuo da esquerda. O sucesso da greve, expresso na paralisação do país e na raiva transformada em força, abriu uma janela de oportunidade.

E agora, onde cabe essa raiva que nos cresce nos dentes?

E agora, como mantemos o cerco?

A história recente, nomeadamente a luta contra a Troika, ensina-nos lições cruciais e opostas: a pressão constante traz vitórias, enquanto a hesitação custa derrotas amargas. O mesmo ciclo de lutas mostra como um recuo tático pode significar um retrocesso estratégico. Os nossos braços não podem baixar - a energia coletiva, tão preciosa e transformadora,  deve ser articulada com coragem e sem tréguas.

Por isso, pelo potencial mobilizador que nos trouxe a greve, precisamos de pensar sobre:

Marcar o ritmo: A passagem à ofensiva exige cadência. A ação de 13 de janeiro é um passo neste caminho, mas não pode esgotar-se aí. Deve ser o detonador para uma mobilização nacional massiva ainda em janeiro, convertendo a indignação da greve em força política irreversível e impedindo que a janela de oportunidade se feche.

Alargar o cerco e os motivos: Sabemos que as nossas vidas são imensas e as nossas reivindicações também. Fazer a ligação clara entre o trabalho precário e a impossibilidade de uma vida digna dá amplitude ao movimento. A luta contra o pacote laboral foi o rastrilho. O pacote laboral não traz melhorias para ninguém que vive do seu trabalho e atinge com brutalidade redobrada as mulheres, condenadas aos setores mais precarizados e à dupla e tripla jornada de trabalho, espreme até ao tutano as pessoas imigrantes, tornando-as ainda mais vulneráveis à chantagem patronal; e alimenta a máquina do racismo, que justifica salários mais baixos e condições degradantes para os trabalhadores racializados.

A urgência da ousadia: A força demonstrada veio dos locais de trabalho, dos bairros, das pessoas. Esta energia deve ditar a audácia das táticas, colocando na linha da frente a base sindical e os movimentos sociais, para que não haja hesitações nos momentos decisivos.

Uma força a crescer-te nos dedos

O sucesso da greve abriu uma janela. Através dela, vemos a possibilidade real de derrotar o pacote laboral e, com ele, a ideia do inevitável. Mas janelas fecham-se com o tempo e com a inação. O caminho a seguir não é um mistério: é o da organização persistente, da procura de convergências, da ação conjunta e da coragem. Transformar o não há inevitáveis da greve no não damos tréguas do dia a dia.

Rebeca Moore
Sobre o/a autor(a)

Rebeca Moore

Estudante de Educação Pré-Escolar e ativista feminista e pela libertação da Palestina
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