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Uma Ganda Manif

As pessoas, e não apenas os suspeitos do costume, parecem ter-se recordado que a democracia também se faz nas ruas, mostrando indignação, mostrando que se é exigente e que a vontade de mudança é uma arma que pode e deve ser mostrada.

Estamos condenados a ter amanhã uma “ganda manif”. Ou melhor, gandas manifs. Com mais ou menos ajudas das grandoladas que sucedem um pouco por todo o país, com maior ou menor relevo dado pela comunicação social e com mais ou menos apoio dos comentadores da praça, o 2 e Março será um grande dia. Com toda a agitação que se sente nas redes sociais, com o desagrado que se sente nas ruas e com as correntes da saúde, da educação, feministas ou LGBT, está visto que será a confluência de diversas vontades. E, como dizem os manuais, as grandes manifestações são feitas destas confluências.

Como é evidente, a má notícia é que o sucesso da mobilização para o próximo sábado deve-se ao facto do país ter batido estrondosamente no fundo. Com um desemprego com níveis inacreditáveis, com uma economia estraçalhada, com a hipoteca de qualquer futuro digno, com uma fuga maciça de cérebros para o estrangeiro, com a redução de direitos como nunca se viu, com a destruição do Estado Social, este Governo tem conseguido de unir setores políticos bastante distantes.

Por seu turno, a boa notícia é que a tragédia em curso teve a capacidade de demonstrar mobilizações populares raras em democracia. O 15 de Setembro foi um exemplo paradigmático a este respeito, com números impressionantes e ocorrendo até em cidades com muito pouca tradição nestes domínios. As pessoas, e não apenas os suspeitos do costume, parecem ter-se recordado que a democracia também se faz nas ruas, mostrando indignação, mostrando que se é exigente e que a vontade de mudança é uma arma que pode e deve ser mostrada. Não tenhamos dúvidas que temos assistido nestes últimos tempos a uma saudável reativação da participação política, cumprindo-se assim o clássico enunciado de que a democracia não se esgota com a inserção do boletim na urna de quatro em quatro anos.

O 2 de março está condenado a ser um grande dia. Não será certamente o último deste Governo que já mostrou ter diversas vidas. Não será também um ponto de chegada, mas sim mais um passo importante na demonstração de que vale a pena indignar-se. Venha a alternativa!

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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