Está aqui

Uma estratégia consequente para vencer a extrema-direita

Em muitos setores da esquerda a política continua a esgotar-se na proclamação e a marginalidade a merecer culto.

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos E.U.A representa um novo capítulo no percurso ascendente da extrema-direita nas sociedades e nos sistemas políticos dos países do capitalismo avançado. O triunfo de Trump sucede ao êxito eleitoral das forças reacionárias e nacionalistas do UKIP em Inglaterra – partido determinante para a vitória do Brexit no referendo de junho – e pode preceder a vitória da Frente Nacional de Marine Le Pen nas presidenciais francesas de 2017. Por outro lado, estes resultados eleitorais são ainda contemporâneos do crescimento acentuado das forças de extrema-direita em países como a Alemanha, Áustria, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Holanda, Hungria, Polónia, Suíça, Suécia e Ucrânia e do desenvolvimento de partidos, como o Movimento 5 Stelle, em Itália, que tendo origem e natureza relativamente distinta, confluem numa estratégia comum de “desafio ao sistema”, assente num projeto político reacionário.

Um dos erros mais frequentes dos adversários desta extrema-direita tem sido o de gastar mais tempo e mais energia a catalogar e a desqualificar política e intelectualmente estas organizações e os seus apoiantes – “burros”, “ignorantes”, “incultos”, “incapazes”, “impreparados”, etc - do que propriamente a refletir sobre as causas (anti)sistémicas que estão na origem do suporte popular e eleitoral da extrema-direita.

Por que razão vingam e fazem caminho naquelas sociedades ideias e projetos políticos egoístas, individualistas, racistas, xenófobos, homofóbicos, islamofóbicos, securitários, socialmente injustos e politicamente antidemocráticos?

Na verdade, se é certo que muitas destas forças políticas e destes movimentos não nasceu com e em razão dos desequilíbrios e injustiças resultantes do processo de globalização ou da crescente falta de legitimidade democrática dos múltiplos sistemas de representação política – já existiam, mas estavam votadas à irrelevância política -, não se pode negar que o desenvolvimento e o avanço daqueles sectores reacionários revela o sucesso e eficácia preocupantes da estratégia e da alternativa ao sistema apresentada pela extrema-direita.

Pelo contrário, por que razão em muitos daqueles países ideias e projetos assentes na solidariedade e coesão social, na tolerância, na liberdade religiosa, no multiculturalismo étnico, no desenvolvimento económico justo e sustentável, no aprofundamento da democracia participativa parecem condenados a uma marginalidade paralisante e inconsequente?

Certamente, porque em muitos setores da esquerda a política continua a esgotar-se na proclamação e a marginalidade a merecer culto. Por outro lado, é indesmentível que as condições dos que se batem por um projeto deste tipo são incrivelmente adversas, tal é a desproporção de forças, de meios e recursos em relação aos seus adversários. Não se pode negar também que o insucesso dos setores mais progressistas se deve também a erros e responsabilidades próprias, resultantes de estratégias e opções táticas erradas porque incoerentes e, algumas vezes, contraditórias. Finalmente, e certamente em consequência do que atrás se disse, na maioria dos casos, a construção de uma “unidade na ação” consequente e consistente dos múltiplos setores de progresso não tem sido possível.

Mas tem de ser assim?

O exemplo do processo eleitoral norte-americano prova que não. Pela primeira vez em muitos anos, desenvolveu-se de forma sólida um amplo movimento político e social que afrontou Wall Street e se bateu pela universalidade dos cuidados de saúde e da educação, pela dignificação do trabalho, por políticas de distribuição de riqueza justas e equilibradas e em defesa de um desenvolvimento ecologicamente sustentável. Nas primárias do Partido Democrata, cerca de 10 milhões de pessoas de todo o país confiaram o seu voto em Bernie Sanderes, o rosto e a voz deste movimento, que, como o próprio várias vezes sublinhou, em muito o transcende. Contrariando as teses que lhe negavam a hipótese de disputar a nomeação Democrata, Sanders encheu praças, avenidas e estádios de futebol, agregou e entusiasmou multidões, mobilizou e organizou sectores sociais até aqui desmotivados pela “alternância sem alternativa” que o sistema político americano sempre lhes colocou à disposição. Venceu as primárias em 23 Estados, disputou outras taco a taco com Hillary, que dispunha de mais financiamento para as suas ações de campanha e quase todo o apoio do aparelho e dos “ilustres” do Partido Democrata. Em todo o processo, Sanders soube ser firme na defesa do seu projeto político, recusando concessões com fins eleitoralistas imediatos e, mais do que isso, nunca renegando a sua condição de Socialista – palavra “proibida” nos E.U.A – e o horizonte estratégico do movimento: a revolução política.

Enganaram-se, pois, os comentadores políticos e os “ilustres” do Partido Democrata que veicularam a ideia segundo a qual a candidatura de um “radical” como Sanders condenaria o partido a “uma derrota história”, a “uma longa travessia no deserto” e, por isso, “à irrelevância política absoluta”, justamente porque o seu discurso e o seu programa afastaria do partido “o eleitorado de centro” e os “setores moderados”. Como outras experiências também nos têm demonstrado, a realidade política é hoje demasiado complexa para ser subsumível nas gavetas habituais da ciência política clássica. Ao contrário do que sucedia há uns anos, a maioria dos sistemas políticos dos países do capitalismo avançado não pode hoje ser arrumado da forma simplista de antigamente: centro moderado de um lado e extremos radicais do outro, com nuances de esquerda e direita em cada um deles. A política, nestes países, vive um estado de polarização incompatível com essas análises clássicas. A derrota de Hillary, a candidata cujo perfil agradava a todo o establishment, que cumpria quase todos os requisitos exigidos pelas regras habituais da ciência política, que media todas as suas palavras e atos, é disso o melhor exemplo. Por mais irónico que possa parecer, foi com Hillary, e não com Sanders, como muitos vaticinaram, que os piores cenários para o Partido Democrata se concretizaram: derrota nas eleições presidenciais, minoria do Senado e no Congresso e desvantagem no número de Governadores e nas eleições de juízes para o Supremo Tribunal.

Bernie Sanders e o movimento por ele liderado são, pois, mais do que um exemplo para os adversários da extrema-direita, um verdadeiro estímulo para o momento seguinte à vitória de Trump: coerência, combatividade, coragem e consequência programática e disponibilidade unitária. Num mundo com caminhos tão estreitos, ganha ainda mais sentido a dicotomia expressa por Rosa Luxemburgo: Socialismo ou Barbárie.

Sobre o/a autor(a)

Advogado
(...)