As alterações climáticas correspondem a mudanças persistentes e prolongadas nos padrões do clima, incluindo variações na temperatura média e na distribuição da precipitação. A sua principal origem está na ação humana, sobretudo na utilização intensiva de combustíveis fósseis. A libertação de gases como o dióxido de carbono e o metano acumula-se na atmosfera, criando um efeito semelhante a um “cobertor” que retém o calor e aumenta a temperatura global.
Algumas consequências passam pelo derretimento dos glaciares, que aumenta o nível de água do mar, aumentando o risco de cheias consequentemente. As temperaturas altas aumentam também o risco de incêndio, assim como a sua intensidade.
Entre 1970 e 2006 foram registadas 70 tempestades de elevada intensidade na Europa, mas desde então a sua ocorrência tem vindo a aumentar.
Em 2021, as cheias que afetaram a Alemanha e a Bélgica provocaram mais de 200 vítimas mortais e prejuízos avaliados em cerca de 44 mil milhões de euros. Dois anos depois, em 2023, a Eslovénia sofreu danos estimados em aproximadamente 16% do seu Produto Interno Bruto, enquanto a tempestade Daniel, na Grécia, originou perdas financeiras de vários milhares de milhões de euros.
Já em setembro de 2024, inundações severas voltaram a atingir vários países europeus, entre os quais Áustria, Alemanha, Hungria, Polónia, Roménia e Eslováquia, evidenciando a crescente vulnerabilidade do continente a fenómenos extremos.
No cenário nacional, em janeiro de 2013, a depressão Gong atravessou o país com ventos até 130 km/h e em outubro de 2018, o furacão Leslie atingiu o país com rajadas que chegaram aos 176 km/h na Figueira da Foz. A tempestade provocou dezenas de feridos, desalojados, milhares de cortes de energia e prejuízos superiores a 120 milhões de euros. Mas desde 2020 que este cenário se tem tornado mais comum e com danos mais alarmantes. Existem dezenas de exemplos a dar por toda a Europa, mas o mais fresco na nossa memória são as tempestades que atingiram o centro do país há cerca de um mês.
As tempestades que assolaram a região tornaram evidente que os fenómenos meteorológicos extremos estão a tornar-se não só mais frequentes, mas também mais destrutivos. Embora a totalidade dos prejuízos ainda esteja por contabilizar, é já claro que, para além das vidas perdidas, dezenas de concelhos ficaram mergulhados no caos, com populações privadas de eletricidade, abastecimento de água e respostas imediatas.
Mas as alterações climáticas não se manifestam apenas através de cheias e tempestades, traduzem-se também no agravamento do calor extremo. O ano de 2025 foi o terceiro mais quente alguma vez registado em Portugal, e as projeções indicam que 2026 poderá ultrapassar todos os anteriores. Com a aproximação do verão, regressa uma ameaça recorrente no país: o risco elevado de incêndios florestais.
Nas primeiras duas décadas do século XXI, a extensão média anual de território consumido por incêndios em Portugal mais do que duplicou quando comparada com o período entre 1980 e 1989. Durante os anos 90, a área ardida ultrapassava, em média, os 100 mil hectares por ano; entre 2000 e 2009, esse valor subiu para mais de 150 mil hectares anuais. Entre 2009 e 2018, os grandes incêndios, que destruíram mais de 100 hectares, foram responsáveis por 68% da área total queimada. Nos anos mais recentes,embora o número de ignições tenha diminuído face à média anterior, a redução da área ardida não acompanhou essa descida, o que indica que os incêndios se tornaram mais extensos e devastadores.
Os efeitos destes fenómenos raramente atingem de forma significativa quem reside em habitações de luxo ou dispõe de maiores recursos. Pelo contrário, recaem sobretudo sobre famílias de baixos rendimentos, populações que vivem em casas mais vulneráveis e comunidades rurais ou costeiras, mais expostas a riscos naturais.
Contudo, o impacto das alterações climáticas ultrapassa os prejuízos materiais. Trata-se também de um problema de saúde pública. Manifesta-se no agravamento da saúde mental das vítimas de catástrofes, no aumento da mortalidade durante ondas de calor, no crescimento de doenças respiratórias associadas ao fumo dos incêndios e à poluição atmosférica, entre muitos outros efeitos que pressionam os sistemas de saúde e fragilizam ainda mais as populações mais vulneráveis. Setores económicos como a pesca e a agricultura são gravemente afetados, deixando a população que depende deles numa situação ainda mais vulnerável.
Perante esta bola de neve de consequências, seria expectável uma responsabilização mais firme dos principais responsáveis pela crise climática, assim como um reforço claro das políticas públicas de prevenção. Se a política favorece interesses económicos que perpetuam modelos intensivos em carbono, está a contribuir para o agravamento do problema. Se os humanos são os maiores responsáveis pelas alterações climáticas, isso significa que as soluções também estão nas nossas mãos. Para isso, é urgente regular atividades poluentes, taxar emissões de forma justa e fiscalizar o cumprimento ambiental.
Trazer o futuro do planeta para a frente do discurso político significa reconhecer que a crise climática não é um tema setorial ou secundário, mas um eixo estruturante das decisões económicas, sociais e territoriais, exigindo planeamento a longo prazo, responsabilidade e coragem para transformar o modelo de desenvolvimento vigente.