Confrontado com um ultimato de Valls para retirar do Governo os Ministros que se têm oposto à “obsessão com a austeridade”, Hollande acedeu e avançou para um executivo “coerente com as orientações” da presidência. Ou seja, sem anti-austeritários.
Que orientações são essas? O presidente avançou com reformas para facilitar os despedimentos, aumentar a carga fiscal (a não ser sobre as empresas que terão uma redução de 40 mil milhões na carga fiscal), aumentar a idade de reforma. O governo de Valls, desde Abril, prometeu reduzir a despesa pública em 50 mil milhões de euros.
É impossível não olhar para este programa e compará-lo com aquele com que Hollande foi eleito. Aí encontrávamos o aumento dos impostos sobre as empresas, a separação institucional na banca, redução da idade de reforma, criação de emprego, contratação de professores. Se é verdade que os socialistas na oposição e os socialistas no poder há muito que pertencem a universos claramente distintos, a esquizofrenia assume hoje contornos cada vez mais bizarros. E consequências cada vez mais desastrosas.
Esta fuga para a frente ocorre num contexto em que Presidente e Primeiro-Ministro batem recordes de impopularidade (17% no caso de Hollande). Em contrapartida, a deriva dos socialistas franceses continua a dar gás à direita e extrema-direita francesa. Aqueles que em França apoiaram Hollande na expectativa de um mal menor assistem agora a uma tragédia política, com a concretização de uma agenda que destrói o Estado social, arrasa e desmoraliza a esquerda e conjura os piores demónios da Europa.
O fosso crescente entre a esperança das campanhas socialistas e a deceção dos governos subsequentes veio para ficar. Na família socialista há os que aderem entusiasticamente ao fanatismo que continua a dominar as instituições europeias, há os que também aderem, mas sob protesto e, pelos vistos, há também os que compreendem que uma esquerda que continue a tentar manobrar dentro do colete-de-forças desenhado pelo governo alemão e pelas instituições europeias não conseguirá nada a não ser os piores males. Para si própria e para a sua gente. A mais modesta política social-democrata exige hoje o mais firme dos confrontos com o fanatismo dos poderes europeus. Sem esse confronto, resta a barbárie, independentemente das intenções.