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Tirem as mãos do Litoral Alentejano!

Mesmo o branqueamento da propaganda não consegue esconder uma região em perigo, uma terra onde os processos acelerados de destruição ambiental servem apenas o lucro, deixando para trás a degradação social, a precarização do trabalho e os restos de uma natureza outrora paradisíaca.

Num mero exercício de pesquisa googlei «litoral alentejano», e após a habitual caracterização da Wikipédia, uma surpreendente quantidade de publicidade: férias, viagens, praia, montado, património natural e cultural, natureza, gastronomia, etc. O Litoral Alentejano é um refúgio imperdível à beira-mar plantado, mas este paraíso é real?

Não, e mesmo o branqueamento da propaganda tipo booking não consegue esconder uma região em perigo, uma zona de sacrifício, tomada por interesses económicos, uma terra assaltada pelo sistema capitalista onde os processos acelerados de destruição ambiental e da qualidade de vida servem apenas o lucro, deixando para trás a degradação social, a precarização do trabalho e os restos de uma natureza outrora paradisíaca.

Vamos a exemplos:

- Na costa de Grândola (Troia-Melides), proliferam projetos e investimentos turístico-imobiliários em pleno cordão dunar, numa lógica de construção desenfreada e desregulada. Monocultura do turismo de uma elite milionária, que destrói património natural, privatiza praias. Os mais pobres expulsos pela pressão urbanística, os campos de golfe instalados em cima de gastos irracionais (quando nem deveriam existir).

- As intenções de prospeção e exploração mineira, dividem-se entre o projeto da “Lagoa Salgada” em Grândola/Alcácer e a denominada zona do “Cercal” entre Santiago do Cacém e Odemira. Depois da prospeção, virá a mineração, o extrativismo regulado por uma Lei das Minas permeável a atropelos ambientais e à exploração desregulada. Uma regulamentação ao serviço dos interesses e da obtenção de lucro para alguns, provocando impactos irreparáveis nos aquíferos, morfologia, património cultural e arqueológico, invasão de zonas protegidas. Virá depois a salinização das bacias hidrográficas e a consequente extinção do montado de sobro e por fim a dificuldade do abastecimento público de água.

- O complexo industrial de Sines que é, desde os anos de 1980, fulcral para o país e decerto para milhares de famílias que dele dependem para o seu trabalho e a sua vida, apesar da tendência de precarização e perda de direitos. Ainda assim, representa o maior foco de poluição do país, é o maior consumidor de combustíveis fósseis, com um passivo ambiental incalculável a que se acrescenta um dos portos mais importantes da Europa e uma tancagem de gás natural. Nos últimos meses multiplicam-se anúncios de investimentos “verdes”, onde o Capitalismo Verde entrou em ação, mantendo tudo na mesma e especulando numa região das mais caras para se viver, onde o custo de vida se sente todos os dias e a transição tem sido tudo menos justa (veja-se o caso da Central Termoelétrica).

- Em Santiago do Cacém prevê-se a instalação de mega-centrais fotovoltaicas em largas centenas de hectares, e onde será instalada a maior da Europa. Projetos megalómanos, onde impera a desvalorização da participação popular para manutenção de um modelo de produção energético centralizado que não gera emprego, desadequado e lesivo para as populações e para o território, favorecendo a desastrosa estratégia do Governo e a maximização do lucro dos promotores, quando o caminho deveria passar pela necessária aposta nas energias renováveis num modelo descentralizado.

- A seca é cada vez mais sentida na região, e as alterações socioeconómicas e morfológicas já se começam a evidenciar. A captação de água é cada vez mais difícil, a precipitação reduziu significativamente, as temperaturas sobem de ano para ano e o modelo agrícola não se adequa a esta realidade com a velocidade necessária. Em alguns casos, já se abastecem populações com autotanques, e com albufeiras em mínimos históricos fica a lavoura e a produção agrícola em risco. Diz-se por cá, que “estão secas”, que “isto vai ser um deserto”. E a Barragem de Campilhas, a 5% da sua capacidade, é um exemplo desta situação catastrófica.

- Odemira convive há muito com um problema social e ambiental. O “mar de estufas” e os “guetos de contentores” são o reflexo do modelo agrícola dos donos daquilo tudo. Monocultura intensiva em estufa, que cresce desenfreadamente e de forma descontrolada, devastando o território e o ambiente, controlando a gestão da água do perímetro de rega do Mira. Um modelo alicerçado em mão de obra migrante, precarizada e escrava, com condições de vida e de habitabilidade indignas e/ou amontoados em contentores. Assistimos em direto à predação do solo, da água e da dignidade.

- A nascente desta região começa a gigantesca monocultura de olival, amendoal e outros “als”, que se estende até Espanha. Um modelo que esgota a fertilidade das terras, contamina os solos, degrada o ambiente e a saúde humana com as doses abusivas de pesticidas e fitoquímicos, onde mais uma vez só interessa a produção e o lucro máximo, mesmo que para isso desapareça o último pássaro a cantar. Referir ainda, que dos subprodutos do olival, resulta a fábrica de bagaço de azeitona, situada nas Fortes, um crime ambiental grotesco, onde se morre todos os dias a inalar os vapores expelidos e onde nem a janela de casa se pode abrir, tal é o manto de nevoeiro tóxico.

É esta a dura realidade deste território, de quem cá vive e morre, todos os dias, pela toxicidade e pela tristeza da delapidação da sua Terra que é hoje, o novo El Dorado do capital. É urgente salvar o Litoral Alentejano

Sim! É esta a dura realidade deste território, de quem cá vive e morre, todos os dias, pela toxicidade e pela tristeza da delapidação da sua Terra que é hoje, o novo El Dorado do capital. É urgente salvar o Litoral Alentejano.

O ponto a que se chegou é o resultado de políticas de submissão ao poder económico, da mercantilização dos recursos naturais e da insensibilidade ambiental a que os sucessivos Governos PS e PSD/CDS têm sido permissivos, coadjuvando mesmo esta orientação por intermediação, numa perspetiva de desenvolvimento económico imediatista, cego e sem retorno, reforçado pela passividade e demissão das Autarquias Locais PS e CDU que, ou ficam a ver ou subtilmente dão um empurrãozinho quando os interesses o exigem.

Uma solução institucionalista ou parlamentarista dependeria necessariamente de uma correlação de forças favorável a uma mudança de paradigma. Esta mudança obrigaria a uma alteração da representatividade atual, (rechaçada por uma maioria absoluta do PS). Uma hipótese de sucesso a do longo prazo, ainda que intrinsecamente de natureza reformista.

Uma leitura pragmática coloca-nos diretamente no campo da resistência ativa, da desobediência e rebeldia, por uma solução radical com caráter urgente. Esta solução só pode ser construída de baixo para cima, junto das comunidades, dependendo da capacidade objetiva de juntar às aspirações populares a força dos movimentos sociais que se vão criando sectorialmente (num dínamo de esperança). Uma plataforma de protesto interseccional, uma plataforma de “todas as lutas” com a força suficiente para obrigar à detonação deste rumo suicida.

Ousemos ir mais longe, rumo ao Ecossocialismo. Criar um chapéu ideológico completamente novo, para criar uma sociedade pós-capitalista, uma nova sociedade que devolva a esperança às massas populares e que nos salve da barbárie. A alternativa à catástrofe ecológica e social, que rompa com o produtivismo, o crescimento infinito, o aumento das desigualdades sociais, de classe e o autoritarismo da finança. Assumindo como primeiro objetivo a mudança radical do modo de produção e a sua coletivização, assente num planeamento democrático e na organização de base cooperativa, autónoma e autogerida.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda
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