Em abril de 2021, a psicóloga Judite Queiróz alertava já que “a COVID-19 veio apenas agravar ou dar visibilidade a problemas com que há muito convivemos e continuam por resolver”1, com destaque para perturbações e doenças mentais. A evidência científica continua a estabelecer uma relação entre o aumento generalizado de problemas de saúde psicológica (perturbações de ansiedade e de humor, consumo excessivo de álcool, etc.) e os problemas socioeconómicos (dificuldades financeiras, pobreza, etc.). Este resultado denuncia o resultado desastroso de longos anos de desinvestimento na saúde, como um todo, e na saúde mental, em especial.
A sociedade tem vindo a conviver bem com a integração de patologias mentais (bipolaridade, esquizofrenia, etc) no discurso corrente, sem pretender com isso responsabilidades coletivas sobre os efeitos que a vulgarização associada pode surtir na vida de milhares de pessoas que as sofre quotidianamente. Talvez por isso a saúde mental esteja silenciosamente, mas frequentemente, envolvida em batalhas pírricas com as instituições dominantes da nossa sociedade. Na academia, é sacrificada em nome da competição, por um modelo empresarial de ensino que sustenta ideologicamente a promessa da meritocracia, e nos garante que perturbações de ansiedade e episódios de esgotamentos nervosos são efeitos colaterais menores, em nome de um bem maior, o nosso futuro (repare-se, esforço=ansiedade=sucesso). Aqui, quem não aguentar com as pressões “naturais”, não está apto para o mercado de trabalho. Em contextos de sociabilidade primária, com a tradicional divisão sexual do trabalho doméstico, as mulheres sofrem a obrigação moral de “fazer tudo”, imposta por papéis de género. A mulher que mais atividades conseguir fazer é a melhor mulher. A grande maioria dos jovens LGBTQIA+ veem também a sua orientação sexual reduzida a “devaneios” da azáfama adolescente, temporária, começando a desenvolver problemas de socialização e depressão; mas também na política, a saúde mental sofre por se imbricar na estrutura e conflito de classes.
É inconcebível que a saúde mental ainda seja menorizada face às suas restantes irmãs da saúde pública.
1. A saúde mental é a base do bem-estar e define-se pela capacidade de adaptação a mudanças bruscas e a adaptações variadas ao longo do ciclo das nossas vidas e constitui por essa razão um fator protetor dos seus efeitos fortuitos. Esta proteção depende da preservação e proteção integrada de todas as esferas da nossa vida (do trabalho, universidade, família, etc.).
2. Portugal tem uma prevalência de doenças psiquiátricas entre as mais elevadas da Europa (um em cada cinco portugueses tem ou teve já um problema de saúde mental/psicológica), situando-se no 5.º lugar no consumo de antidepressivos na Organização de Cooperação e Desenvolvimento económico (OCDE). Mas o número actual de psicólogos nos cuidados de saúde primários (apenas 250, um rácio de 1 psicólogo para cada 40 mil utentes2) tem inviabilizado uma resposta adequada às necessidades das pessoas, adensado estas desigualdades no acesso à saúde. Quem pode pagar, compensa procurando serviços no mercado. E quem não pode? Não procura. É preferível reconhecê-lo a mentir. Não é, por isso, de espantar que seja entre o precariado e as vítimas das sucessivas crises – austeritária, pandémica e, novamente, austeritária, motivada pela espiral inflacionária e a recusa na subida de salários por via da lei – que se encontrem alarmantes deteriorações da saúde mental. Lágrimas silenciosas, mas reais.
A necessidade de implementar estratégias de prevenção e promoção da saúde psicológica está desde há muito identificada (e espero ter contribuído para a sua recuperação teórica), sendo fulcral para o desenvolvimento social, qualidade de vida e bem-estar individual e comunitário. A criação de equipas comunitárias, numa lógica de multidisciplinaridade (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, enfermeiros e terapeutas ocupacionais), uma resposta de proximidade que permitirá reduzir internamentos e intervir junto de grupos de risco e população vulnerável, em articulação com os cuidados de saúde primários, são medidas absolutamente necessárias para a localização e tratamento de perturbações mentais, prevenindo o seu agravamento.
O foco deve, por isso, deslocar-se da lógica reativa (e consequencialista) para uma preventiva. Para que isto aconteça, são fundamentais duas mudanças estruturais: no plano social, abandonar a estigmatização e o projeto axiológico neoliberal que sustenta a “maquinação” do ser humano; no plano político, materializar as medidas anteriores, reconhecendo o papel determinante dos psicólogos na comunicação com as pessoas e comunidades (especificamente em momentos de crise), enquanto agentes ativos de preservação da saúde. Com isto, procura-se universalizar um Serviço Nacional de Saúde mental e torná-lo verdadeiramente inclusivo. Investir em políticas transversais aos diversos contextos de vida (situação laboral, contexto familiar, universitário, pessoas racializadas, pessoas LGBTQIA+, etc.), fomentando a redução das desigualdades que estão na base deste sofrimento e do estigma, que censura quem precisa de apoio. A saúde mental não é um jogo de cálculo de custo e benefício.
Notas: