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Tirar aos muitíssimo pobres, para distribuir migalhas aos muito pobres

Se aumentar 7 euros numa pensão de 189 euros não é uma medida simbólica, então só pode ser uma coisa: uma afronta aos mais pobres e uma marca concreta e indisfarçável da política anti-social do Governo.

No início deste novo ano, o Ministro Mota Soares apresentou-se publicamente para propagandear a sua medida de apoio (?) aos reformados e pensionistas que recebem as pensões que não chegam nos seus valores mais altos aos 250 euros. Estamos a falar de uma população envelhecida, que trabalhou toda a sua vida, em muitos casos no campo, em condições de extrema penosidade, explorados, sem direitos e sem descontos para a segurança social. Uma população para quem existe uma dívida, uma verdadeira dívida em relação à sua vida de duro trabalho.

Mas o Ministro diz: “Não é uma medida simbólica”. Se aumentar 7 euros numa pensão de 189 euros não é uma medida simbólica, então só pode ser uma coisa: uma afronta aos mais pobres e uma marca concreta e indisfarçável da política anti-social do Governo.

É esclarecedor que Mota Soares faça tanto alarde desta medida e, sem pudor, diga que “ninguém fica para trás” e anuncie a “ética social da austeridade”. Está tudo dito. Aumenta-se 7 euros numa pensão mínima ao mesmo tempo que se empobrece os filhos e filhas destes pensionistas, impossibilitando-os de apoiarem os pais a fazerem face às despesas que lhes podem garantir uma vida minimamente digna.

O congelamento destas pensões, obra do Governo do PS, retirou poder de compra aos pensionistas, diz o Ministro e é verdade, mas não são 7 euros que o irão repor, porque estes homens e mulheres sempre viveram fora do “poder de compra”, esticando os seus magros rendimentos.

Mas o culminar da hipocrisia está na explicação de onde o Governo foi buscar o dinheiro para este “aumento” das pensões – da redução de verbas para o Rendimento Social de Inserção, a tal medida de política social maldita para o CDS, que lhe serviu para uma das maiores campanhas demagógicas a que já assistimos no nosso país, visando dividir os pobres e lançar o estigma da preguiça e da subsídio-dependência sobre milhares de famílias.

No exato momento em que o desemprego bate recordes e vai continuar a aumentar, em que a pobreza alastra e atinge sectores da população que até aqui se julgava protegidos, o Governo diminui o subsídio de desemprego e restringe de forma drástica o acesso ao RSI, depois de já ter reduzido o valor desta prestação social e de outras, como é o caso do abono de família.

O combate à pobreza e pela igualdade de oportunidades vale zero para quem faz da austeridade o centro da sua política. Já tinham abandonado a solidariedade e a justiça na redistribuição da riqueza, agitando a bandeira da caridade, agora assumem que é preciso tirar aos pobres para dar aos pobres.

Poderemos descer mais baixo do que isto?

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
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