Taxar quem usa a IA para muito lucrar, sim!

porRui Pedro Moreira

22 de abril 2025 - 12:52
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Dependendo do ponto de partida da discussão, é possível que para muitos a inteligência artificial seja um dos caminhos para aumentar o fosso entre quem pouco tem e corre o risco de ainda ficar com menos, e quem já muito possui e vê neste modelo uma hipótese de engordar ainda mais.

Se apenas nos focarmos nos problemas e não nas soluções, é fácil de imaginar que determinadas profissões - está estudado, tem sido noticiado - estão em perigo: motoristas (já existem protótipos de carros sem condutor), jornalistas (já é uma realidade, a Lusa e outras agências tem "pilotos" a decorrer), operadores fabris (quantos robots já estão em funcionamento?), e a lista continua. Sim, são muitas mais, E sim, é uma realidade a que não se pode fugir, e o combate que se faz não é o estarmos contra o avanço da tecnologia mas sim o quê, a quem, quando e onde vai ser usada. E, no limite, quem beneficia e sai prejudicado financeiramente no processo e, não de somenos, o peso social que esta transformação vai provocar.

No caso das profissões mais expostas, a resposta aos trabalhadores está na formação, na reconversão, noutra actividade na mesma empresa em que possam ser úteis sem ir parar ao desemprego. Grande parte das vezes, e com o pânico instalado, não há a clarividência de olhar mais do que para a ponta dos pés, como muitas vezes ficam paralisadas as associações sindicais que olham para este advento com fatalidade - não há que ficar petrificado, há sim que esclarecer os trabalhadores e dar-lhes possibilidades de alternativas e insistir, sempre, para que seja feita justiça.

Olhar para a tecnologia como um bem necessário e que nos permitirá trabalhar menos horas e ter mais qualidade de vida, sim, mas também se facturam mais e os lucros disparam porque tem menos trabalhadores e a massa salarial das empresas reduz significativamente, então também os Estados têm de beneficiar com isso. Independentemente do sector de actividade.

Usar a IA pode ser um factor diferenciador em qualidade, rapidez, facturação, reconhecimento e perfeição. Não há que ter medo de reconhecer. O grave da IA é o enriquecimento ainda maior, mais pornografico, que acentue ainda mais as desigualdades, ficando "meia-duzia" com fortunas inimagináveis, insultuosas, quando os povos passam necessidades básicas, quando existem falta de bens essenciais, quando a miséria bate à porta de cada vez mais seres humanos. Isso é que tem de ser evitado.

Taxar os ricos não os vai impedir de desenvolverem e usarem a tecnologia em seu benefício, a questão é que pode ser em nosso (colectivo) benefício também, nem vai colocar nenhum travão a opções empresariais, mas a mudança de "chip" no comportamento dos empresários é que tem de acontecer. Emagrecer as suas empresas de pessoas, por força da substituição promovida e provocada pela tecnologia, tem de os obrigar a pagar a taxa social que estão a atirar para os Governos.

Quem muito tem e muito tem acumulado ao longo dos anos deve ficar ciente que as proposta do Bloco de Esquerda lhes vai "cortar" uma fatia dos seus bens, é verdade, mas é justo e moralmente defensável que se faça. Reparem: um imposto sobre as grandes fortunas que se aplica a patrimónios acima dos 3.500 salários mínimos nacionais - cerca de três milhões de euros (deduzidos de dívidas). A estas fortunas será aplicada uma taxa entre 1,7% e 3,5%; um "imposto Elon Musk" aplicado às empresas que prestam serviços digitais com volume de negócios superior a 750 milhões de euros: uma taxa de 3% sobre o total das receitas provenientes de serviços digitais; a reposição do IRC nos 21%, anulando o desconto milionário que a direita deu às grandes empresas; taxar de força justa o património de luxo, criando uma nova taxa de 2,2% de 5 milhões de euros e de 8% para imóveis em offshores. Qual é o drama? Onde está a boa costela social dos milionários?

Para taxar quem muito tem é preciso coragem política e não ter o "rabo preso" a nenhum passado empresarial comprometedor (como se sabe, é bem evidente no actual contexto político português). O fazer mais, melhor, diferente e justo, tem a ver com o que queremos obter e estamos dispostos a transformar. Mais do mesmo, não obrigado!

Sim. Sou um perigoso esquerdista radical, daqueles que os liberais nada estimam, que insiste e não desiste em combater as desigualdades entre ricos e pobres. Felizmente, somos muitos.

Rui Pedro Moreira
Sobre o/a autor(a)

Rui Pedro Moreira

Ativista laboral
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