Sobre as coisas que existem

porAna Carolina Gomes

30 de janeiro 2026 - 14:39
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Se as rajadas de vento foram, sim, pelo menos com o nome Kristin, passageiras, as consequências estão aí e prolongam-se e revelam a fragilidade infraestrutural de um país que não está preparado para lidar com a inevitabilidade de uma cada vez maior frequência de fenómenos climáticos extremos.

Ventos fortes, loucos e breves, sacudiram o país. Concelhos como Leiria, Marinha Grande ou Figueira da Foz foram especialmente afetados. Vários locais dos distritos do centro lidam ainda com as consequências do que não foi um fenómeno passageiro.

Existe Leiria. Mesmo que isolada do que se passa no resto do país, mas televisionada na sua excecionalidade de distrito mais afetado pela tempestade para todas as pessoas que não perderam acesso às telecomunicações.

Se as rajadas de vento foram, sim, pelo menos com o nome Kristin, passageiras, as consequências estão aí e prolongam-se. Falta de energia, água e telecomunicações continua, dias depois, a ser o maior desafio de muitas pessoas no distrito de Leiria, muitas sem contactos com familiares ou pessoas próximas, sem ter acesso aos avisos transmitidos na televisão, sem conseguir chamar uma ambulância.

Se a solidariedade comunitária e o empenho de todos os profissionais que estão no terreno não podem ser colocados em causa, a verdade é que situações como esta não são, simplesmente, aceitáveis e revelam a fragilidade infraestrutural de um país que não está preparado para lidar com a inevitabilidade de uma cada vez maior frequência de fenómenos climáticos extremos. É gritante a falta de investimento em infraestruturas, muitas delas entregues ao setor privado, como a energia e as telecomunicações, no seu robustecimento, na manutenção preventiva ou na criação de sistemas redundantes.

Existe também uma crise habitacional que exponencia os impactos destas falhas. Construções inadaptadas aos desafios do clima. Casas que, apesar dos valores que monstruosos navegam ao sabor da especulação, continuam muito frias no inverno e muito quentes no verão, aumentando a gravidade das consequências de não ter energia elétrica nestes dias de inverno, para aquecer a água do banho ou ligar um aquecedor.

Resolver a crise da habitação em Portugal é uma emergência, mas essa crise vai mais fundo do que conseguir garantir um teto a toda a gente, é preciso combater a habitação precária e incapaz de suportar com segurança os desafios das ondas de calor e das tempestades cada vez mais frequentes.

Pois as alterações climáticas existem. Os fenómenos climáticos extremos não são passageiros, também, porque têm sido, cada vez menos, fenómenos excecionais ou estanques no tempo.

Só numa semana de janeiro de 2026: tempestade Ingrid, tempestade Joseph, tempestade Kristin, culturas arrasadas, florestas sobreviventes aos incêndios de 2017 arrasadas por motosserras invisíveis, cheias no Mondego, deslizamentos de terras — o comboio de tempestades ainda não acabou.

Adaptações que só se conseguem verdadeiramente mudando o foco, cuidando das comunidades e do território, abandonando lógicas extrativistas obcecadas com o objetivo único do lucro

A expressão “o pior já passou” dá pouco ânimo quando percebemos que as coisas vão acontecendo, sem princípio e fim identificáveis. Os efeitos de um planeta que sofre não se sentiram/ vão sentir num dia, num grito final, são mais um choro miudinho que se vai adensando anos após ano.

E se todas as medidas são poucas para travar o caos climático, para sonhar um futuro diferente, a verdade é que já será sempre tarde para evitar todas as suas consequências, pois já estamos a viver.

Adaptação é a palavra-chave. Adaptar para uma maior proteção e resiliência, aos incêndios de verão e às tempestades do inverno, as infraestruturas e as habitações, mas também a agricultura, a floresta, a costa... Adaptações que só se conseguem verdadeiramente mudando o foco, cuidando das comunidades e do território, abandonando lógicas extrativistas obcecadas com o objetivo único do lucro.

Ou seja, o capitalismo existe. Vamos falar disso?

Ana Carolina Gomes
Sobre o/a autor(a)

Ana Carolina Gomes

Antropóloga. Ativista. Dirigente do Bloco de Esquerda
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