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Síria:mini-guerra mundial sem paz à vista

Interessante exercício pedagógico foi também o de José Manuel Rosendo, ter aproveitado para desfazer falsos mitos alimentados pela comunicação social.

Participei num evento cultural e de debate no sábado passado na Livraria Tigre de Papel, em Lisboa, numa iniciativa do Le Monde Diplomatique, onde foram ditos poemas de autores sírios exilados em países europeus e cujo convidado principal foi o jornalista da Rádio e Televisão de Portugal, José Manuel Rosendo. Repórter com larga experiência no terreno dos conflitos armados no mundo árabe. O jornalista partilhou algumas das suas experiências no terreno da guerra fratricida síria, no Curdistão e noutras frentes que compõem uma quase miríade de grupos de guerrilha em confronto com o exército de Bashar Al-Assad, envolvimento direto turco, iraniano, milícias iranianas, libanesas e diversos grupos militantes na região.

Ingredientes mais que suficientes para José Manuel Rosendo concluir que se trata de uma “mini-guerra mundial”, o que se passa com o recrudescimento do conflito na Síria.

Há poucos anos, um político português conservador, com larga experiência em política internacional, a propósito das guerras no mundo e da nova “desordem mundial” dizia-me mais ou menos isto:” preferia viver no tempo da guerra fria, o mundo estava mais controlado, pelas duas superpotências, na realidade ninguém esperaria que uma das superpotências carregasse no botão e destruísse a Humanidade. Este mundo é muito mais perigoso, os loucos, são em maior número e mais imprevisíveis”.

Eu que sou da geração que viveu a última década da Guerra Fria e que se bateu pelo fim do mundo bipolar, pelo fim das tiranias, pelo fim do armamento nuclear, começo a dar razão ao político que comparou os tempos do equilíbrio EUA-URSS com o caos atual de que nos alertou várias vezes o novo Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

E se a Síria está mergulhada no caos absoluto com morte e sofrimento de centenas de milhar de pessoas, mais de um milhão de deslocados internos e refugiados, que dizer de outros conflitos menos falados, como o do Iémen, palco de uma guerra fratricida e alvo constante dos ataques aéreos da Arábia Saudita?

No debate, José Manuel Rosendo fez um historial da deflagração do conflito sírio, que começou com a "Primavera Árabe", a repressão do movimento pacífico que pedia direitos e liberdades, a deserção de generais do exército regular e que formaram o Exercito Livre da Síria, o ultimato de Obama a Assad que ameaçou com a guerra, caso Damasco ultrapassasse a "linha Vermelha" na utilização de armas químicas contra as populações (que usou como se sabe).

Interessante exercício pedagógico foi também o de José Manuel Rosendo, ter aproveitado para desfazer falsos mitos alimentados pela comunicação social e por alguns analistas quanto à natureza "extremista, radical, fundamentalista", expressões levianamente utilizadas, por falta de rigor e desconhecimento quanto à forma como os militantes dos grupos armados vivem e encaram a religião. Os grupos, quer na Síria, quer no Iraque, têm todos eles uma componente religiosa, não-laica, mas é uma "componente natural", não sendo isso, forçosamente, que os transforma todos em "radicais". Exceção feita ao Daesh/ISIS, que luta por um Califado e tem uma conduta genocida contra grupos étnicos e religiosos como os Yazidis. Sobre o futuro da Síria não há um compromisso para a paz, apesar das conversações no Cazaquistão em que a Rússia está envolvida e em que estão excluídos os curdos, por insistência da Turquia. Tal deve-se à proliferação de grupos armados e os muitos interesses envolvidos na Síria, e podem levar a uma fragmentação territorial, designadamente, com o aparecimento de um Estado sunita.

Houve tempo também para um olhar sobre a questão israelo-palestiniana. Questionei Rosendo sobre a política externa que o novo Presidente dos EUA Trump deverá seguir para o Médio Oriente, devido às manifestas simpatias que este já revelou em relação a Israel e esse anúncio de mudar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém, numa clara provocação aos palestinianos e às Resoluções da ONU. José Manuel Rosendo, considera que antes de qualquer abordagem, o processo israelo-palestiniano não vai conhecer novidades, até porque foi completamente ultrapassado pelos grandes conflitos em curso na região, Síria e Iraque, desviando as atenções sobre Israel. O repórter - que foi enviado especial da Antena 1 várias vezes à Cisjordânia e Gaza, palco de numerosos confrontos israelo-palestinianos-, concluiu mesmo que a solução “Dois Estados”, morreu de vez. A solução que foi acordada em Oslo e nas Conversações de Camp David entre o líder da OLP Arafat e os sucessivos primeiros-ministros de Israel. Rosendo lembra que o sonho de Ariel Sharon, do "Grande Israel", é o que prevalece, entre os detentores do Poder em Telavive.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista, Ex-Editor Assuntos Internacionais da RTP Antena 1
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