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Sines, a todo o gás para um péssimo negócio

Esta oportunidade anunciada de afirmar Sines e Portugal na Europa, mais parece uma oportunidade histórica para António Costa poder nadar na piscina dos grandes, uma oportunidade com custos desastrosos.

Há mais de uma década que se especula acerca de um gasoduto que forneça à Europa Central uma alternativa ao gás russo. O atual contexto de guerra e a vontade da Comissão Europeia de construir ligações alternativas, ou de bypass, com interconexões entre a Península Ibérica e Itália, e ligação à Alemanha, ameniza a resistência da França ao atravessamento dos Pirinéus por um gasoduto, que impediu no passado esta obra colossal.

Perante uma alteração geopolítica e económica global, e a tendência para uma bipolarização, os EUA prontificaram-se a ajudar a Europa, com Biden a propor a venda das suas reservas de Gás Natural Liquefeito (GNL). A boa vontade americana e a dependência energética da Europa, abre a corrida ao fóssil e as portas a um retrocesso assinalável no combate às alterações climáticas e ao extrativismo, o negócio é o de sempre, e os lucros serão para os mesmos de sempre.

Na calha da negociata estão, Trinidad & Tobago e Nigéria, este último um regime autoritário que esmaga a população apropriando-se da terra e dos recursos naturais, mesmo que isso signifique repressão e violar direitos humanos.

É a Alemanha o maior consumidor de gás Russo na Europa. Olaf Scholz está refém da dependência energética, sem o NordStream 2 e sem qualquer porto capacitado para receber e armazenar o GNL, fica recetivo à oferta de Biden e aproveita o álibi que a decisão do Parlamento Europeu lhe oferece: a classificação do GNL, e da energia nuclear, como energias sustentáveis, o GNL passou a ser uma “energia verde” numa eximia operação de greenwhashing, fundamental para a transição energética, dizem. Scholz apelou à construção de um gasoduto a partir de Sines, esta ótima porta do Atlântico para se fazer negócios.

O GNL é composto por 90% de metano, molécula 30 vezes mais prejudicial ao aquecimento global que o CO2, maioritariamente extraído pelo desastroso processo de “fracking” e transportado por gigantes navios metaneiros, uma negação das necessidades de resposta à urgência climática.

Com o avanço desta solução abre-se um conflito severo com a resolução da COP26 em Glasgow, onde se havia determinado “reduzir as emissões de metano”. Certo que no atual contexto capitalista não surpreende que se rasgue qualquer acordo, e se coloque em causa a nossa sobrevivência, se isso permitir um bom negócio.

O governo português não resiste a prestar vassalagem à poderosa Alemanha, António Costa não desilude o poder instituído e compromete-se a “100% com o empenho de Portugal para a construção do gasoduto”.

E em Sines? Nada de novo, para o Governo do PS continua a ser um desígnio nacional estratégico de crescimento e oportunidade competitiva. Para quem cá vive é um paraíso da especulação imobiliária e do aumento do custo de vida, pouco ou nada se vê além de anúncios e no caso, o anúncio de um grotesco retrocesso ambiental. Esta oportunidade anunciada de afirmar Sines e Portugal na Europa, mais parece uma oportunidade histórica para António Costa poder nadar na piscina dos grandes, uma oportunidade com custos desastrosos.

Este míssil apontado a Sines, esta violação do compromisso de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5ºC, é fruto de uma guerra energética entre blocos imperialistas, que disputam hegemonia e força, à custa das pessoas e do planeta.

É necessário mudar de política: Abandonar o fóssil e deixar o gás debaixo da terra!

A alternativa requer uma mudança de paradigma, porquê continuar a adiá-la? Queremos um “míssil ecológico”: que aliado a uma necessária alteração dos meios de produção, aposte no avanço tecnológico e em novas formas de obtenção e armazenamento de energia limpa e renovável; investimento massivo na democratização da energia, na produção renovável e descentralizada, na autossuficiência das habitações; investimento em estabilizadores de rede, interligações elétricas. Pensemos uma rede elétrica transnacional, com escala e solidariedade, um internacionalismo ecossocial que derrube muros e construa a ponte entre a Europa do sul e a bacia Mediterrânea.

Quanto a nós, organizemo-nos e preparemos a força popular nas ruas, sejamos o gás para queimar este caminho, e abrir um movimento de esperança. Este será um ato de sobrevivência e resistência, capaz de revolucionar as nossas vidas e salvar o Planeta.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda
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