Há mais de uma década que se especula acerca de um gasoduto que forneça à Europa Central uma alternativa ao gás russo. O atual contexto de guerra e a vontade da Comissão Europeia de construir ligações alternativas, ou de bypass, com interconexões entre a Península Ibérica e Itália, e ligação à Alemanha, ameniza a resistência da França ao atravessamento dos Pirinéus por um gasoduto, que impediu no passado esta obra colossal.
Perante uma alteração geopolítica e económica global, e a tendência para uma bipolarização, os EUA prontificaram-se a ajudar a Europa, com Biden a propor a venda das suas reservas de Gás Natural Liquefeito (GNL). A boa vontade americana e a dependência energética da Europa, abre a corrida ao fóssil e as portas a um retrocesso assinalável no combate às alterações climáticas e ao extrativismo, o negócio é o de sempre, e os lucros serão para os mesmos de sempre.
Na calha da negociata estão, Trinidad & Tobago e Nigéria, este último um regime autoritário que esmaga a população apropriando-se da terra e dos recursos naturais, mesmo que isso signifique repressão e violar direitos humanos.
É a Alemanha o maior consumidor de gás Russo na Europa. Olaf Scholz está refém da dependência energética, sem o NordStream 2 e sem qualquer porto capacitado para receber e armazenar o GNL, fica recetivo à oferta de Biden e aproveita o álibi que a decisão do Parlamento Europeu lhe oferece: a classificação do GNL, e da energia nuclear, como energias sustentáveis, o GNL passou a ser uma “energia verde” numa eximia operação de greenwhashing, fundamental para a transição energética, dizem. Scholz apelou à construção de um gasoduto a partir de Sines, esta ótima porta do Atlântico para se fazer negócios.
O GNL é composto por 90% de metano, molécula 30 vezes mais prejudicial ao aquecimento global que o CO2, maioritariamente extraído pelo desastroso processo de “fracking” e transportado por gigantes navios metaneiros, uma negação das necessidades de resposta à urgência climática.
Com o avanço desta solução abre-se um conflito severo com a resolução da COP26 em Glasgow, onde se havia determinado “reduzir as emissões de metano”. Certo que no atual contexto capitalista não surpreende que se rasgue qualquer acordo, e se coloque em causa a nossa sobrevivência, se isso permitir um bom negócio.
O governo português não resiste a prestar vassalagem à poderosa Alemanha, António Costa não desilude o poder instituído e compromete-se a “100% com o empenho de Portugal para a construção do gasoduto”.
E em Sines? Nada de novo, para o Governo do PS continua a ser um desígnio nacional estratégico de crescimento e oportunidade competitiva. Para quem cá vive é um paraíso da especulação imobiliária e do aumento do custo de vida, pouco ou nada se vê além de anúncios e no caso, o anúncio de um grotesco retrocesso ambiental. Esta oportunidade anunciada de afirmar Sines e Portugal na Europa, mais parece uma oportunidade histórica para António Costa poder nadar na piscina dos grandes, uma oportunidade com custos desastrosos.
Este míssil apontado a Sines, esta violação do compromisso de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5ºC, é fruto de uma guerra energética entre blocos imperialistas, que disputam hegemonia e força, à custa das pessoas e do planeta.
É necessário mudar de política: Abandonar o fóssil e deixar o gás debaixo da terra!
A alternativa requer uma mudança de paradigma, porquê continuar a adiá-la? Queremos um “míssil ecológico”: que aliado a uma necessária alteração dos meios de produção, aposte no avanço tecnológico e em novas formas de obtenção e armazenamento de energia limpa e renovável; investimento massivo na democratização da energia, na produção renovável e descentralizada, na autossuficiência das habitações; investimento em estabilizadores de rede, interligações elétricas. Pensemos uma rede elétrica transnacional, com escala e solidariedade, um internacionalismo ecossocial que derrube muros e construa a ponte entre a Europa do sul e a bacia Mediterrânea.
Quanto a nós, organizemo-nos e preparemos a força popular nas ruas, sejamos o gás para queimar este caminho, e abrir um movimento de esperança. Este será um ato de sobrevivência e resistência, capaz de revolucionar as nossas vidas e salvar o Planeta.