Segurança não é medo: o que dizem os dados que o discurso omite

porPatrícia Lavareda

04 de maio 2026 - 15:21
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Entre perceções amplificadas, estigmatização territorial e a necessidade de um policiamento de proximidade.

A segurança pública tornou-se um dos terrenos preferidos para a construção de narrativas políticas assentes no medo. Nos últimos anos, multiplicaram-se discursos que apresentam Portugal, e em particular a Área Metropolitana de Lisboa, como um espaço cada vez mais inseguro. Mas há um problema de base, os dados não confirmam essa narrativa.

Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, os dados mais recentes disponíveis indicam que Lisboa regista cerca de 60,2 participações criminais por mil habitantes. Setúbal apresenta 36,6, Sintra 29,9 e Vila Franca de Xira 27,4, um dos valores mais baixos da região. Estes números desmontam a ideia de que os territórios fora do centro são os mais inseguros.

A insistência nesta narrativa não é inocente. Alimenta uma geografia do medo que associa periferias e bairros populares à insegurança, poupando os centros urbanos. Quando os dados contrariam esta ideia, são ignorados. Quando a confirmam, são amplificados.

Este clima de medo serve objetivos políticos. Desvia o debate dos problemas estruturais e promove divisões, colocando fracos contra fracos. Ao mesmo tempo, fragiliza o espaço público, que deixa de ser vivido como lugar de encontro e passa a ser percecionado como risco.

Tem também uma dimensão racial e xenófoba que não pode ser ignorada. Quando certos territórios são apresentados como perigosos, insinua-se quem deve ser temido. Comunidades racializadas, migrantes e moradores de bairros populares tornam-se alvos de suspeição, mesmo quando os dados não sustentam essa associação.

O problema agrava-se quando se confunde segurança com controlo social. A associação entre imigração, pobreza e crime alimenta preconceitos e desvia a atenção das causas reais da insegurança.

Mas há um dado muitas vezes ignorado. De acordo com o RASI 2025, a violência doméstica continua a ser um dos crimes mais participados em Portugal, com cerca de 30 mil ocorrências anuais, o que corresponde a mais de 80 denúncias por dia. Não acontece na rua nem depende do território. Acontece dentro de casa e exige respostas diferentes, com prevenção e apoio às vítimas.

Recusar esta lógica não é ignorar problemas de segurança. É levá-los a sério. E isso implica reconhecer que a segurança não se constrói apenas com repressão, mas também com confiança.

O policiamento de proximidade assume aqui um papel central. Mais do que uma presença reativa, implica conhecer o território e construir relações. Só assim se previnem conflitos e se aproxima a polícia das pessoas.

Esse policiamento deve também estar comprometido com a igualdade. A confiança não se constrói quando há suspeição à partida, constrói-se com respeito e continuidade.

Uma população que confia nas instituições sente-se mais segura para participar ocorrências e colaborar na prevenção. Sem essa confiança, muitos crimes permanecem invisíveis.

Se o debate sobre segurança pretende ser sério, deve partir dos dados e não do medo. Porque uma sociedade mais segura não é apenas aquela onde o crime diminui, é aquela onde todas as pessoas se sentem seguras e confiam em quem as deve proteger.

Patrícia Lavareda
Sobre o/a autor(a)

Patrícia Lavareda

Trabalhadora na área de restauração coletiva. Membro simpatizante da Concelhia de Vila Franca de Xira do Bloco de Esquerda
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