Está aqui

Rio e Menezes têm soluções idênticas

Rio é liberal, autoritário e sovina; Menezes é liberal, autoritário e despesista. E esconde o PSD tanto quando pode, apesar de ter sido um dos promotores e apoiantes de sempre de Pedro Passos Coelho. Não aconselho o leitor a entrar no jogo das diferenças de personalidade ou nas tricas intestinas. O máximo que conseguirá é encontrar um poço de intrigas, mentiras, egos e ambições.

É hoje um lugar-comum celebrar-se o Porto como um exemplo de cidade de sucesso. Quem o faz socorre-se geralmente de indicadores como a afluência de turistas, a efervescência estudantil junto ao piolho ou o número de bares das “galerias de Paris”. A edilidade serve-se com abundância da “revitalização do centro” ou da “recuperação” do Bom Sucesso. Em ambos os casos, o sucesso é mais de um modelo de cidade assente no marketing, nas receitas genéricas e num efeito crescente de cenário e visibilidade imediata em detrimento de dinâmicas estruturadas. Que importa que Rui Rio tenha exercido, com inaudito autoritarismo, uma fortíssima violência contra os pobres? Relembro os processos de fúria destrutiva, sem alternativa participada e sustentável, dos bairros São João de Deus ou do Aleixo; a célebre campanha “Porto Feliz”, contra os arrumadores, unindo repressão policial com “saber” de académicos de “renome”; os despejos de idosas, “porque falaram para as televisões de Lisboa” ou a recuperação de um decreto-lei fascista (1945) para a manutenção dos “bons costumes” nos bairros. Não esqueço.

Sim, há a economia da noite, os espaços “informais”, de performances imaginativas e pequenos espetáculos precários, acoplados a associações efémeras ou ao “mecenato” dos bares. Mas fechou-se um teatro municipal (para dar guarida a La Féria, que abalou envolto em dívidas), destruiu-se um setor cultural que era pujante e que, longe da imagem liberal do subsídio-dependente, trabalhava em rede com populações desfavorecidas. O teatro São João, Serralves e a Casa da Música, com a indiferença da Câmara e os cortes do Governo, sobrevivem cada vez pior.

Em suma: temos no Porto espaços públicos de fachada (como o recuperado quarteirão das Cardosas) com casas para jovens executivos e uma fratura social crescente, um pastiche de mercado chique com hotel à mistura (Bom Sucesso), o Bolhão a cair aos pedaços e o centro histórico como um coração a apertar-se, no esquecimento, degradação e miséria.

Outra das “narrativas”, como agora se diz, aponta para a sovinice de Rio e apresenta como alternativa a pujante veia criativa de Menezes. No essencial, todavia, as soluções são idênticas. A cidade de fantasia, cheia de marcas, slogans, túneis, hotéis, noitadas e turistas está tão presente no discurso de Rio como no de Menezes ou até, mudando de latitude, em António Costa (que “vendeu” a “Rua Rosa” a uma conhecida marca de vodka e aluga o terreiro do Paço ao Continente). Rio é liberal, autoritário e sovina; Menezes é liberal, autoritário e despesista. E esconde o PSD tanto quando pode, apesar de ter sido um dos promotores e apoiantes de sempre de Pedro Passos Coelho. Não aconselho o leitor a entrar no jogo das diferenças de personalidade ou nas tricas intestinas. O máximo que conseguirá é encontrar um poço de intrigas, mentiras, egos e ambições.

O PS desapareceu uma vez mais. Nem sombra de entusiasmo, nem ambição. Caladinho perante a limitação de mandatos; medroso nas tomadas de posição; acanhado face à previsível derrota.

Vou votar com entusiasmo na candidatura que, sob a sigla do Bloco de Esquerda, agrupa ativismos vários animando uma campanha sem sectarismos, que se vai construindo através do debate e da participação em assembleias, transmitindo ideias fortes à cidade e com uma autenticidade inigualável. Estou cansado de farsas, cenários e faz de conta. Quero uma cidade de ideias limpas, gente séria e solidária, capaz de pensar e agir de outra maneira. Gente com dúvidas e fragilidades, mas atenta e sensível. Gente, em suma.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
(...)