Já imaginaram o que teria sido combater o estado novo e o regime salazarista recorrendo única e exclusivamente à RTP? Uma emissora estatal, sob o controlo directo do regime.
Parece absurda a ideia, mas é exactamente o que fazemos hoje, a luta informativa ao capitalismo selvagem e aos neo-fascismos depende quase exclusivamente de plataformas controladas pelo grande capital, como o Instagram, Twitter (X) ou TikTok.
Deixamos que o adversário, bilionários adeptos do capitalismo selvagem, do fascismo e do genocídio controlem o que podemos e quando podemos dizer e como o fazer. Isto num dia bom, jáque a censura e a manipulação da informação são reais e ficaram evidentes na nos mais recentes ataques a Gaza em que, por exemplo, a Meta (detentora do Facebook e do Instagram), censurou massivamente as publicações relativas ao tema1.
A resistência precisa de espaços e meios próprios, físicos e digitais, fóruns, centros culturais, espaços comunitários ou plataformas alternativas não dependentes do sistema que combatemos.
A maioria das organizações políticas e resistência ao actual sistema económico e político resumem a sua actividade digitalàparticipação nas mesmas redes que manipulam as massas sociais para tentar fazer a esquerda irrelevante.
Tudo é imediatamente subterrado numa série de conteúdos de extrema-direita ou, com sorte, em gatinhos fofinhos a atirarem coisas ao chão ou recomendações de dietas duvidosas. Claro que de vez em quando alguma coisa lá consegue furar o algoritmo, tal como de vez em quando alguma obra conseguia escapar ao lápis azul da censura salazarista. Apesar de deixar a dúvida se de facto conseguimos vencer o algoritmo, ou apenas acionamos a válvula de escape que impede a frustração social de se acumular demasiado e assim manter a ilusão de ainda termos algum poder?
O jogo de azar dos algoritmos será o melhor que a esquerda pode fazer?
Consideremos o preço a pagar ao usar exclusivamente os meios de empresas trilionárias com pouco interesse na democracia ou nos direitos humanos e capazes de subverter processos democráticos a nível transnacionais.
Primeiro, abdicamos voluntariamente de controlar os meios de comunicação e produção da nossa organização. Se tudo pertence ao poder que desejamos derrubar, nunca poderemos ambicionar ser actores independentes desse sistema e estaremos incrivelmente limitados se nos cingirmos aos seus meios. O nosso esforço deixa de ser o de organizar, argumentar e expor as fragilidades do capitalismo na relação com a nossa vida e liberdade, passamos a viver digitalmente para enganar um algoritmo, para fazer memes com que raramente nos identificamos, mas que talvez sejam suficientemente ambíguos ou provocativos os suficientes para os moderados e, quem sabe, até a direita, notar. No fim se calhar apenas polarizamos mais as pessoas e possivelmente sem os resultados desejados.
O segundo preço deste módico de acçãoépago com o fortalecimento do próprio sistema das redes sociais e o enriquecimento dos seus donos (tal qual colonialismo digital). Quanto mais tempo e mais conteúdo circula nestas redes, mais fortes elas são, mais razões temos para ficarmos dependentes e presos nelas, mais anúncios nos são mostrados, mais dados nos são roubados, mais somos manipulados. O custo incluí a nossa saúde mental e até intelectual2.
Terceiro, dificultamos ou impossibilitamos a vida a quem, sem participar nas redes sociais do sistema, quer resistir, manter-se informado, participar nas organizações, ir a eventos ou manifestações, mas fora do sistema a informaçãoéquase inexistente. Se todas as informações e toda a organização só estão presentes e divulgadas nas redes sociais mais tóxicas então garantirmos que toda a militânciaéela própria um potencial acto de auto-sabotagem.
Finalmente sofremos talvez a pior consequência, a exaustão total e a apatia. Entre conteúdos dos vários lados que lutam pelo máximo da nossa atenção e pela reação mais emotiva, mas que apenas esgotam a nossa energia e resistência, demasiadas vezes recuamos para a inacção aparentemente segura mas onde já não há nenhuma tentativa de resistir ou pensar um mundo melhor nem a forma de o conseguir. Onde a informação, seja ligeira ou aprofundada não existe, consequência de termos abandonado os espaços digitais seguros para nos focarmos exclusivamente nos tóxicos.
Não tem de ser assim.
Militar digitalmente na esquerda não tem de implicar participar unicamente na toxicidade e violência das redes sociais do grande capital. Certamente há exceções e pessoas com um modesto sucesso na esquerda, mas as exceções não devem guiar a nossa estratégia de organização, esta deve apontar para permitir a maior participação e da forma mais sã possível.
Não advogo aqui ao boicote às grandes plataformas das redes sociais, essa é outra discussão que não pertence a este texto.
Contudo, preocupa-me que manter uma actividade militante de resistência ao capitalismo que destrói o ecossistema e nos leva à guerra e à miséria, seja hoje praticamente impossível fora das redes de manipulação do mesmo sistema. Talvez seja preciso lutar o fogo com o fogo, mas essa não pode ser a única estratégia, poisécertamente a estratégia perdedora da terra queimada.
A esquerda tem de criar espaços digitais seguros e organizar-se, enquanto instituições, associações, comunidades e crucialmente os enquanto indivíduos e criar ou usar alternativas de infra-estruturas básicas digitais para a sua actividade.3. A esquerda, e as pessoas de esquerda, precisam de recorrer a meios próprios e livres, seja o Fediverse (como o Mastodon, Pixelfed, Lemmy...), fóruns, sites, mailing lists, newsletters, jogos de computador e quem sabe inventar novos meios. A esquerda tem de recriar espaços onde possa resistir e criar nos seus próprios termos, sejam os seus debates, a sua arte, a sua ficção ou meios de conservação da memória.
O que a esquerda não pode continuar refém dos meios que os 0.1% dos mais ricos nos impõem. A alternativa existe e é urgente. E afinal colocar a mesma publicação no Instagram e no Mastodon são apenas mais uns cliques. A esquerda fé-lo no estado novo onde imprimia, publicava e distribuía clandestinamente jornais ou discos proibidos (até pelo “sequestro” de aviões4) hoje é mais fácil.
Penso ser vital que a esquerda, de pessoas individuais a colectivas consigam, mesmo sem abdicar das redes tradicionais, desenvolver meios digitais onde possa seguir o seu caminho incondicionada pelo grande algoritmo.
Um mundo melhor é possível, tal como são possíveis e reais meios digitais seguros para o atingirmos.
PS: Texto escrito em software open source, pois todos podemos participar na revolução e os pequenos gestos também contam.
Notas:
1Já há bastante tempo (https://www.hrw.org/report/2023/12/21/metas-broken-promises/systemic-ce…- content-instagram-and), mas intensificou após os ataques de Israel à Palestina (https://www.aljazeera.com/podcasts/2024/10/24/the-take-uncovering-metas…).
2https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11939997/
3Salve-se o Mastodon do Esquerda.net na ligação https://masto.pt/@EsquerdaNet, queémanifestamente insuficiente, mas parece ser o único activo nos últimos 30 dias.