No ano de 1789 um grupo de marinheiros do navio britânico “Bounty”, que se encontrava em pleno Oceano Pacífico a caminho da Europa apoderou-se das armas a bordo e amotinou-se. O navio realizava a missão botânica de adquirir um número considerável de pés fruta-pão no Taiti, na atual Polinésia Francesa, e transportá-los para as possessões britânicas na América. O líder da revolta era o imediato Fletcher Christian, que aprisionou o capitão William Bligh e tomou o comando do navio. Parte da tripulação aderiu ao motim e a restante permaneceu fiel ao capitão Bligh, sendo largada num bote, com mantimentos para 5 dias. A revolta teve por base castigos severos e humilhantes que o capitão do navio aplicava aos seus homens.
Os revoltosos regressaram ao Taiti e separaram-se em dois grupos. Enquanto um grupo, onde se incluía Christian, fugiu para a ilha remota de Pitcairn, onde deixou descendentes que perduram até aos nossos dias, um outro grupo foi aprisionado por um navio britânico, levado para Inglaterra e julgado. Três homens foram condenados à morte, mas os restantes foram absolvidos ou perdoados. Quanto a Bligh e aos marinheiros que se mantiveram fiéis, prosseguiram para oeste, até alcançarem Kupang, que era o centro da presença holandesa em Timor.
Esta narrativa histórica vem a propósito das trapalhadas que têm envolvido o navio-patrulha “Mondego”. Claro que parte da tripulação não se amotinou contra o capitão do navio por estar sujeita a duros castigos, não se apoderou das armas e não largou o capitão e outros marinheiros que lhe permaneceram fiéis à deriva num bote. A comparação certamente é excessiva, mas veio-me à memória a histórica revolta na “Bounty”.
O navio “Mondego” também tinha uma missão, que era a de acompanhar um navio russo a norte do Porto Santo, em pleno Oceano Atlântico. No dia 11 de março o conjunto de 13, de um total de 29 militares, recusou-se a embarcar, numa altura em que as previsões meteorológicas apontavam para uma ondulação de 2,5 a 3 metros e o próprio comandante assumiu, perante a guarnição, que não se sentia confortável em largar com as limitações técnicas do navio.
Que limitações técnicas eram estas? Segundo os marinheiros “revoltosos”, o navio encontrava-se com um motor e um gerador de energia elétrica inoperacionais. Por outro lado, não possuía um sistema de esgoto adequado para armazenar os resíduos oleosos a bordo, ficando estes acumulados nos porões, aumentando significativamente o risco de incêndio. Também entrava água no navio-patrulha e o único motor operacional necessitava de manutenção há cerca de 2.000 horas, com fugas de óleo diversas. Com umas condições meteorológicas adversas o perigo revelava-se de forma evidente.
Perante a atitude corajosa, responsável e de bom-senso que tiveram os 13 marinheiros ao se recusarem a embarcar, de acordo com as razões alegadas, assistimos a uma gritaria infernal da parte dos governantes, chefias militares e de alguns comentadores e jornalistas acéfalos. Gritam aos quatro ventos que houve uma quebra de obediência e da disciplina militar e que os marinheiros devem ser exemplarmente punidos. Acima de tudo, o que importa, é que a missão fosse cumprida, mesmo que o “Mondego” fosse ao fundo e toda a sua tripulação perecesse. Os marinheiros seriam “considerados uns heróis no cumprimento de uma missão ao serviço da pátria”! Vergonhoso e ultrajante!
Para cúmulo, passados uns dias, temos o chefe do Estado-Maior da Armada a dar um raspanete em público aos marinheiros “indisciplinados”. Segundo os advogados destes, o Almirante Gouveia e Melo fez um “julgamento na praça pública” ao exprimir um juízo sem que antes os visados tivessem oportunidade de dizer de sua justiça ou de se defenderem. Ainda segundo a defesa dos visados, “há indícios de prova que estão a ser apagados” e que o navio “Mondego” “foi todo limpo” antes da ida ao local da comunicação social. “Um navio carregado de material terá voado até ao Funchal para permitir reparações no navio”.
Mas, como se costuma dizer, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Ou seja, as trapalhadas na “ ‘Bounty’ portuguesa” prosseguiram e avolumaram-se. Na noite de 27 de março, a cerca de 8 km a sul do porto do Funchal, em direção às Ilhas Selvagens, o NRP “Mondego” sofreu uma avaria com a paragem súbita de dois geradores elétricos, de dois motores de propulsão e de quatro motores diesel, ficando totalmente inoperacional. O navio teve que ser rebocado por dois rebocadores para o porto do Caniçal. E que dizem agora as chefias militares? Que a avaria teve origem nos baixos níveis de combustível no tanque de serviço que alimenta os respetivos motores e geradores, ou seja, que a avaria se deveu a “um erro humano”. Mas, afinal, quem quer a Marinha enganar? Ninguém acredita nestas justificações injustificadas! Perante factos não há argumentos que valham. Razão tiveram os 13 marinheiros que se “revoltaram” na “’Bounty’ portuguesa”. Merecem ser agraciados e o reconhecimento do país! Qualquer punição que venham a ser alvo será considerada uma das maiores injustiças e vergonhas cometidas no país pós 25 de abril. E constituirá caminho fácil para o crescimento do populismo.
Há muito que estão diagnosticadas as causas que afetam o navio “Mondego”. Como afetam outros meios e outras áreas militares e civis – a falta de investimento público da parte dos sucessivos governos e em particular do governo de maioria absoluta de António Costa. Os serviços públicos encontram-se numa degradação crescente, com destaque para o SNS e a Escola Pública. Mas há outros que não ficam atrás, como por exemplo a Polícia Marítima que, abandonada pelos governantes e humilhada pela Marinha, padece de uma gritante falta de recursos financeiros, humanos e materiais. Depois temos os tristes casos como os que ocorreram recentemente na Praia de Carcavelos com as autoridades a queixarem-se da falta de meios.
Faltam no essencial, mas, infelizmente, não faltam os muitos milhões de euros ao serviço das Forças Nacionais Destacadas no âmbito da NATO e de outras entidades belicistas, que só estão a contribuir para o avolumar da tensão e da escalada da guerra, cujas consequências podem redundar num apocalipse mundial.