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Requisito: o desejo de mudar o mundo, com baixo salário e muito trabalho

A forma de precarização, porventura mais sofisticada, contínua viva na legislação laboral, que não traz soluções concretas para os jovens, que procuram apenas uma vida (a sua vida).

“O desejo de mudar o mundo, com baixo salário e muito trabalho”, podia ler-se numa oferta de emprego no site Net-empregos.com, publicado a 13-11-2018. Aqui queria-se um/a advogado/a. Não sabemos se era piada, o que sabemos é que esta é a realidade da oferta de emprego destinada aos jovens portugueses.

Na trágica governação PSD- CDS, Pedro Passos Coelho não se inibiu ao afirmar que não tinha soluções para os jovens, disse-o com todas as letras e sem mágoa: emigrem.

Desde essa data até hoje, como sabem, muito aconteceu, mas os jovens continuam a não ter espaço de crescimento na sociedade e nas preocupações políticas, continuam, em 2018 a ter que esperar pela sua vez que não vem, como uma espécie de eternos adultos adiados. Notemos que, 25% da população desempregada é jovem (e ativa), sendo Portugal, apenas ultrapassado, na Europa, pela Espanha com 38% e Itália, com 34% de desemprego jovem.

Continuam estágios não remunerados a ser mais a regra do que a exceção, sem uma regulamentação à vista que garanta pelo menos, que o estagiário não paga para ir trabalhar. Na melhor das hipóteses, é oferecido ao jovem adulto que dá os primeiros passos no mercado de trabalho, um estágio IEFP, que depois, no fim dos 9 meses percebemos, ser rotativo na empresa, pois os estágios IEFP não são uma medida de incentivo à contratação jovem, são uma (mera) medida de apoio à contratação (sucessivamente, precária) às empresas.

Por isso, quando se negoceia o aumento do período experimental para os jovens para 180 dias e se negoceia o aumento dos contratos de muita curta duração de 15 para 35 dias, ampliando-se os setores, negoceia-se um futuro muito trémulo para os jovens portugueses.

A forma de precarização, porventura mais sofisticada, contínua viva na legislação laboral, que não traz soluções concretas para os jovens, que procuram apenas uma vida (a sua vida), vivemos num país que foi desistindo dos jovens que veem, cada vez mais como miragem, a máxima de por um posto de trabalho, um contrato, com todos os direitos.

A verdade é que, quando se fala no cumprimento esquizofrénico do défice, não se fala da dívida por saldar, aquela, com os jovens.

Sobre o/a autor(a)

Jurista e autarca do Bloco de Esquerda
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