Reparar, e não apenas relembrar

porJoão Moreira da Silva

16 de novembro 2024 - 21:00
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Não nos devemos enganar pelas narrativas recicladas por Starmer, Montenegro e companhia, que alegam uma preocupação com o passado, mas que o deixam “lá atrás”. O passado não terminou com o fim formal do colonialismo.

Os olhos do Ocidente ainda estão fixados nos EUA, ignorando os ventos de mudança que chegam de Samoa, um pequeno arquipélago no Oceano Pacífico. Foi em Ápia, a sua capital, que recentemente se reuniram os 56 países da Commonwealth. Neste país, antigo palco de colonização de alemães, neozelandeses e norte-americanos, deixou-se por escrito, com todas as letras: “Chegou a altura de falar de reparações históricas”. O primeiro-ministro britânico, constrangido pela estrondosa derrota diplomática do seu país, refugiou-se no argumento do costume: “Não podemos mudar a nossa história”, fechando a porta a reparações financeiras. Mas a conversa ainda agora começou.

A viragem na narrativa dos líderes da Commonwealth não deve ser subestimada, uma vez que se junta a um crescente movimento por reparações históricas à escala mundial. Há menos de um ano, numa conferência em Acra (Gana), foi forjada uma aliança entre a União Africana e a Comunidade do Caribe (Caricom) para exigir aos países europeus o pagamento pelos seus “crimes históricos”. Mais recentemente, a União Africana anunciou que, em 2025, o tema central da organização internacional será a “justiça para africanos e afrodescendentes através de reparações”. Neste sentido, as duas organizações, que entre si reúnem mais de 70 países, têm vindo a delinear a criação de um tribunal internacional ad hoc, com o apoio da Organização das Nações Unidas – semelhante aos dos julgamentos de Nuremberga, no caso do nazismo – para julgar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

Torna-se evidente que os ventos de mudança sopram com cada vez mais força dos vários cantos do Sul Global. O debate das reparações parece ameno em Portugal, relativamente adormecido no espaço público desde as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa há seis meses. Mas também aqui chegará em toda a força. “É importante relembrar que Portugal foi o país que traficou mais humanos na era da escravatura, contando-se cerca de 4,5 milhões de africanos que fizeram esta travessia da morte até à independência do Brasil – um número significativamente superior ao do Império Britânico. Se contabilizarmos os números do Brasil e Portugal em conjunto, a conta sobe para 5,8 milhões até 1875. Será impossível fugir da conversa. Resta, por isso, perguntar: o que acontecerá quando estes ventos soprarem com toda a força na direção da Península Ibérica?

resposta de Keir Starmer aos pedidos de reparação financeira – na qual reconhece um “passado horrendo”, mas sublinha que “devemos olhar para a frente em vez de olhar para trás” – demonstra uma subtil mudança na narrativa dos líderes europeus centristas. A narrativa explicitamente colonial, que celebrava abertamente o passado imperial das nações, é lentamente substituída por um reconhecimento de “aspetos negativos” da colonização e pelo consequente distanciamento desse passado. Não é por acaso que também o Governo português recusou, em Abril, quaisquer reparações financeiras aos países outrora colonizados, enquanto simultaneamente reivindicou os “gestos (...) de reconhecimento da verdade histórica com isenção e imparcialidade”. Cria-se, assim, uma enorme tensão entre relembrar e distanciar o passado; o ponto central, desde Starmer a Montenegro, é o mesmo: o nosso passado até pode ser este, mas não temos nada a ver com isto.

A ideia de que o passado colonial nada tem a ver com o nosso presente já foi desconstruída por vários historiadores. Eric Williams, em Capitalism and Slavery (1944), demonstrou que a riqueza extraída das Caraíbas não só sustentou e produziu várias famílias poderosas no Reino Unido, como também potenciou a industrialização da sociedade britânica. Este ano, Michael Banner, no livro Britain’s Slavery Debt: Reparations Now! (2024) explorou, através de cálculos precisos, como a sociedade britânica contemporânea beneficiou das riquezas do colonialismo e, por contraste, as novas gerações das Caraíbas são herdeiras de uma pobreza que remonta a esta época. De acordo com os cálculos de Banner, o Reino Unido deveria cerca de 200 mil milhões de libras às nações das Caraíbas – mas aceita que 20 milhões é um “bom começo para as negociações”, uma vez que foi este o valor pago como compensação aos escravocratas britânicos após a abolição da escravatura no século XIX.

Exigem-se reparações, a nível interno e internacional. Os ventos de mudança, vindos de Samoa, começarão a sentir-se com intensidade – resta saber como responderemos ao primeiro toque

O caso do colonialismo português, apesar das suas diferenças com o Império Britânico, partilha dinâmicas semelhantes: famílias, instituições e um Estado que beneficiaram do tráfico de pessoas escravizadas, da exploração de mão de obra barata e da extração de recursos naturais das colónias até 1974 – benefício esse que é visível até aos dias de hoje, ainda que pouco se escreva sobre os seus beneficiários.

No Reino Unido, instituições como as universidade de Cambridge e Oxford, o Banco de Inglaterra, a Igreja Anglicana ou a National Gallery começaram recentemente a investigar a sua ligação ao passado colonial, procedendo a indemnizações e restituições. Em Portugal, o legado de diferentes instituições no colonialismo é inegável – por exemplo, as missões da Igreja Católica por todo o Império Português; o papel central do Banco Nacional Ultramarino (atual Caixa Geral de Depósitos) na ocupação colonial em África; as universidades nacionais, como Lisboa e Coimbra, que promoveram estudos científicos, em particular na área da Antropologia, produzindo e legitimando teorias racistas; o Museu de Etnologia, que alberga uma coleção intimamente ligada a estes estudos antropológicos. Tal como no Reino Unido, é necessário analisar e calcular o impacto real destas instituições durante a era colonial – um trabalho que deve ser realizado no âmbito de uma Comissão da Verdade do Colonialismo Português. Tal como nos casos judiciais, é essencial recolher as provas e avaliar os danos para proceder aos pedidos de reparação.

Não nos devemos enganar pelas narrativas recicladas por Starmer, Montenegro e companhia, que alegam uma preocupação com o passado, mas que o deixam “lá atrás”. O passado não terminou com o fim formal do colonialismo. Relembrar a história é importante, claro. É por isso que investigamos o passado, que escrevemos artigos e livros, que organizamos exposições em museus (aproveito para vos convidar para a exposição “Descolonizar o Colonialismo, Desconstruir o Imaginário”, recentemente inaugurada no Museu de Etnologia). Mas, como nos lembra a Declaração do Porto, relembrar e reconhecer é, apenas, um primeiro passo – um passo que abre novas portas para reparar o irreparável.

Os legados do colonialismo traduzem-se em discriminações estruturais nas nossas sociedades, que abrangem o racismo que mata em Portugal, as crescentes políticas anti-imigração e, de forma mais abrangente, as desigualdades entre os países ocidentais e do Sul Global. Para problemas estruturais, exigem-se respostas estruturais. Exigem-se reparações, a nível interno e internacional. Os ventos de mudança, vindos de Samoa, começarão a sentir-se com intensidade – resta saber como responderemos ao primeiro toque.

Artigo publicado em publico.pt a 12 de novembro de 2024

João Moreira da Silva
Sobre o/a autor(a)

João Moreira da Silva

Doutorando em História na Universidade de Cambridge
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