“Renovação do espectro político” e os “Cidadãos”

porRui Maia

12 de dezembro 2014 - 15:39
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Hoje a política parece jogar-se bastante na pergunta mil vezes repetida: Podemos ou não Podemos? Mas já agora seria também interessante perguntar? Pudemos ou não pudemos? Pudemos sim.

Falar de “renovação do espectro político” é hoje mais do que obrigatório para quem quer estar na moda da conversa política. Tal como noutras tribos, as tribos da política também se conhecem, todas e entre si disputam muitas vezes o último grito político na tentativa de obter mais apoio popular. O grito mais atual é hoje o dos “cidadãos”, apartidários, quem sabe despolitizados, e como se mobilizam sem interesse para mudar o mundo. Porque afinal, é preciso mudar “os partidos” e o “sistema político”.

Mas quando se atira a “classe política” para o discurso está-se a fazer um favor à “classe de poder”, porque é o afastamento entre a “classe política“ e os outros – os cidadãos - que define o espaço da corrupção, da mentira, das influências, e de outras características permanentes da política nacional. Nada disto tem qualquer superioridade intelectual ou moral e aliás é contrastante com a noção essencial de que cada pessoa tem uma participação política no espaço social onde vive. Essa participação que muitos gostaríamos de ver mais intensa e participante... mais de classe, e mais política.

Dos “Cidadãos” à “Classe Política” vai um saltinho

Estendida a passadeira num esforço abnegado de cooperação entre populistas e irresponsáveis, os cidadãos do costume aproveitam a deixa. Nos grandes partidos estende-se a passadeira para defender a mudança do “sistema político“ para um refastelado sistema bi-partidário. Outros cidadãos – Joana Amaral Dias, Ana Drago, Rui Tavares, Daniel Oliveira, André Freire, Boaventura Sousa Santos, Elísio Estanque, Isabel do Carmo e muitos outros - (que certamente nada têm a haver com a política e desse assunto nunca os vimos tratar), exercem o legítimo direito de procurar levar os cidadãos a apoiar a sua candidatura, seja pelo LIVRE, seja por outro projeto qualquer.

Não há nenhum problema com o aparecimento de novos “sujeitos” políticos como é óbvio. Mas alavancar as suas campanhas numa suposta superioridade moral de candidaturas cidadãs não é mais do que uma forma populista de campanha eleitoral partidária protagonizada por vários Tiranossauros Rex da política nacional. Além do mais, os cidadãos (e com a devida licença incluo-me aqui) gostavam de saber qual o programa político proposto pelos novos projetos para o país? Se calhar até conseguimos fazer uma plataforma de “cidadãos” de partidos diferentes quem sabe?

Podemos falar em participação cidadã na Democracia?

Passando então a palavra “cidadãos”, hoje a política parece jogar-se bastante na pergunta mil vezes repetida: Podemos ou não Podemos? Mas já agora seria também interessante perguntar? Pudemos ou não pudemos? Pudemos sim.

Pudemos, em 2011, vários pequenos e inorgânicos movimentos sociais, recolher assinaturas para concretizar uma Lei Contra a Precariedade. Uma lei levada à Assembleia da República por cidadãos pela 2a vez na democracia em Portugal. Nesse grupo de cidadãos (e que alguém corrija se estiver enganado), a estrutura central de dinamização da iniciativa foi do grupo dos Precários Inflexíveis, ao qual se juntaram irregularmente outras energias. Dentro desse grupo de ativistas, vários deles e delas (arrisco até, muitos) eram e são também ativistas do Bloco de Esquerda.

E pudemos ou não fazê-lo sem organização partidária a dirigir? Pudemos ou não organizar a iniciativa em conjunto com outras pessoas (pouquinhas e honrosas exceções é certo) de outros partidos? Pudemos ou não fazê-lo com pessoas que não gostavam ou eram desconfiadas dos partidos? Pudemos sim, pudemos.

A iniciativa da Lei Contra a Precariedade recolheu cerca de 40.000 assinaturas (para legalizar um partido são precisas 7.500) e foi a maior iniciativa de mobilização cidadã dos últimos anos com impacto direto na vida de milhares de pessoas. Esta iniciativa alicerçou-se em dois pontos essenciais: primeiro, negou à partida uma espécie de “aguenta, aguenta” na versão de quem acha mais importante pregar princípios históricos do que transformar o presente; em segundo lugar alicerçou-se num enorme esforço de um pequeno grupo de pessoas em solidariedade e dedicação política, porque sabíamos que os flashes, as câmaras, as revistas e os jornais, são muito mais atrativos para alguns “cidadãos” do que a ideia de ter de recolher dezenas de milhar de assinaturas em papel, de ter de verificá-las uma a uma, de estar nas manhãs ou nas noites, no calor da porta do Avante ou no frio da entrada do Campo Pequeno.

Pudemos e nunca nos reivindicámos de mais mérito do que outros e nunca nos ouvirão dizer que somos mais íntegros (uns “cidadãos”) do que outros (os “políticos”). Para nós a participação política é diferenciada, e faz sentido que assim seja porque há muitos espaços políticos complementares, resultado do enorme atraso do movimento social.

Os cidadãos e o exemplo do Bloco de Esquerda

Muitos dos que fazemos intervenção política partidária no BE conhecemos bem o que são iniciativas cidadãs, porque aprendemos muito no movimento social e na intervenção inorgânica. Aprendemos no Bloco e fora do Bloco. Na descriminalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, na Lei Contra a Precariedade, no Casamento Homosexual, mas também na organização das grandes manifestações dos últimos anos, na participação nas acampadas do Rossio ou nos piquetes de greves gerais. Nós pudemos e fizemos.

Por isso, se pudemos, porque não haveríamos de poder novamente?

Se quisermos percorrer todo o verbo “Poder” só temos de continuar a dar o exemplo porque a política hoje é disso que trata.

Rui Maia
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Rui Maia

Engenheiro informático
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