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Quotas leiteiras, já!

É notória e indesmentível a crise que o sector leiteiro atravessa. O impacto desta crise, nos Açores, é profundamente preocupante, pois representa 30% do leite do país e 50% da economia regional.

Se juntarmos a esta crise aquela que é vivida na área das pescas, temos, em mãos, uma conjugação de fatores que nada auguram de bom para os sectores tradicionais da nossa economia e, portanto, para o futuro dos Açores.

Várias causas são apontadas para a atual crise da fileira do leite. Desde as sanções sobre a Rússia - que levaram à retaliação deste país -, à quebra de importação da China e aos cerca de 7% de quebra, no consumo da Europa, em paralelo com o nosso país.

Mas estas causas são conjunturais, não representando, de facto, o cerne do problema.

Este quadro regional estende-se ao Continente e a muitos outros países da Europa.

Vimos a dimensão disto mesmo, pela televisão, nas recentes manifestações de agricultores, em França, Luxemburgo e Bélgica.

A resposta da Comissão Europeia a este descalabro é, praticamente, nula. Reuniões atrás de reuniões redundam na conclusão, por parte da CE, de que o que é preciso é baixar a quantidade de produção!

Ora, baixar a quantidade de produção, com o atual nível de preços, é uma mistura explosiva que lançará, na miséria, muitos e muitos produtores.

Aqui está o resultado do fim das quotas leiteiras!

Em resposta às crises cíclicas do sector do leite, nos anos 70 e 80 do século passado, surgiu o regime de quotas leiteiras, em 1984.

Muitos/as de nós nos lembramos, ainda, dos derramamentos de leite, em praça pública, ou da chamada ‘montanha de manteiga’, na Europa. São lembranças passadas que podem voltar a ser realidade se, entretanto, nada for feito.

Apesar de todas as vicissitudes, o regime de quotas foi responsável por um período de estabilidade e de renovação tecnológica, no sector.

Então, porquê acabar com um regime que trazia bem-estar à Europa?

Meramente por razões ideológicas, ao serviço das grandes companhias e dos grandes países produtores. E, já agora, fazendo o caminho para o acordo económico USA-UE, o qual impõe o desmantelamento de todo o tipo de regulamentações.

Para os grandes, o que interessa é o mercado puro e duro, pois assim, apesar de algum mau estar durante algum tempo, destroem milhares de pequenos produtores e ficam sós, no mercado.

O que vivemos hoje é, não só o mercado a funcionar, mas também a filosofia liberal que subjaz à atual existência do Euro.

Obviamente, no sector leiteiro de vários países da Europa, cresce uma indignação generalizada e crescem as vozes (mesmo ao nível governamental) que reclamam a necessidade de repor o regime de quotas leiteiras.

Tendo em conta a experiência que temos - antes e depois das quotas leiteiras -, bem como a situação que se vive no nosso país (quer no Continente, quer nos Açores), só podemos ter uma posição, no próximo Concelho de Ministros da Agricultura: - a luta pela reintrodução das quotas leiteiras, já!

A situação em quem vivem os nossos produtores - e as repercussões que esta situação tem, na nossa economia - exigem a coragem de levantar a voz, na defesa deste objetivo.

Temos, como nossos aliados, milhares de produtores, por essa Europa fora. Temos, de forma cada vez mais evidente e audível, a opinião de vários ministros europeus…

Estamos à espera de quê e porquê?!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
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