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Queques, gunas e azeiteiros

Todas as sociedades contam estórias a si mesmas. Através delas cria-se uma teia de sentido partilhado e um conjunto de imagens ou representações que circulam de modo generalizado. Os epítetos com que mutuamente nos brindamos são disso um extraordinário exemplo.

Todas as sociedades contam estórias a si mesmas. Através delas cria-se uma teia de sentido partilhado e um conjunto de imagens ou representações que circulam de modo generalizado. Os epítetos com que mutuamente nos brindamos são disso um extraordinário exemplo. Apesar de algumas variações contextuais, todos sabemos o que é um queque ou beto. Uma vez, ao estudar culturas estudantis nos liceus do Porto, deparei-me com um grafito num estabelecimento de ensino conhecido pela especial visibilidade dos jovens endinheirados e de “boas” famílias:

Aqui pára a betolândia”

E parava. Aquela inscrição era como uma demarcação espacial e simbólica, uma espécie de fronteira vedada aos queques da Foz. Para a atravessar (isto é, para a transgredir, para passar de um meio social a outro) exigia-se uma metamorfose identitária, com tradução na indumentária, nas formas de apresentação de si, na linguagem, nas posturas e estilos. Era uma nova região, habitada pelas curtes dos gunas e dos azeiteiros. Azeiteiro é uma categoria ambígua, pois nela cabem os membros das classes populares com comportamentos ostentatórios considerados de mau gosto pelos queques, mas também os novos-ricos que traem o seu défice de linhagem em qualquer pormenor mal-alinhavado. Os gunas geralmente estão-se nas tintas e desprezam as boas maneiras dos demais. Cultivam o que consideram autêntico e popular. Quem não falava “à Porto”, por exemplo, com tudo o que isso significa numa vasta constelação semântica, quem não mostrava a peitaça e os músculos a jogar futebol, era um amaneirado de continente estranho.

As sociedades são arenas de luta, em que os conflitos sociais operam pelo enfrentamento de narrativas, imagens e rótulos. Existir (socialmente) é classificar (socialmente), como tão bem mostrou o sociólogo Pierre Bourdieu.

Às vezes, pela boca morre o peixe, vicissitude que o Primeiro-Ministro conhece bem: ao classificar os deputados da IL como “queques” pisou a casca de banana da contradição performativa (“Tá a ver?”). Disse uma coisa, mas autodenunciando-se, mostrou o lugar onde agora habita ou deseja habitar. Talvez o PS viva envergonhado nesse trânsito entre o guna e o beto, entre a pertença e a referência, algures perdido na memória da esquerda e no deslumbramento pró-business.

Os queques de linhagem, contudo, não se costumam enganar. Não hesitam. É no entre-si (nos colégios privados, nos condomínios fechados, nas liturgias sociais, como algumas missas, festas mundanas, clubes exclusivos ou bailes de debute, ou na cooptação que engorda certos partidos e grandes empresas) que encontram os seus e se blindam. Sonham o mesmo sonho: eles, só eles, merecem governar o mundo.

Artigo publicado em Gerador a 29 de dezembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário. Doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação, coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.
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