No dia 26 de setembro deste ano, os italianos foram às urnas e decidiram dar ao partido de extrema-direita liderado por Giorgia Meloni uma maioria capaz de governar o país. Não demorou muito até que a família da extrema-direita europeia felicitasse Meloni pela sua vitória. No meio destas felicitações, não poderia faltar o reconhecimento de que Meloni era a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra na Itália e que este era um grande feito, do qual as feministas se deveriam orgulhar. Daí surge a questão: a quem serve uma primeira-ministra líder de um partido neofascista que tem como slogan “Deus, Pátria e Família”?
Claro que Giorgia Meloni é de facto uma mulher a ocupar um cargo de chefia, e não é um cargo de chefia qualquer, sendo que gerir um país lhe confere bastante poder. Ora, chegar a um lugar destes não torna ninguém por definição uma grande aliada do movimento feminista e da sua luta.
No momento em que Meloni foi eleita, Eduardo Bolsonaro não perdeu tempo em questionar onde andavam as feministas para felicitar Meloni por ser a primeira mulher a ser eleita PM na Itália. Para além da provocação óbvia, ninguém espera que uma das figuras da extrema-direita saiba distinguir o significado de ter uma liderança feminina de uma liderança feminista.
Isto não passa de uma consequência de um feminismo que é completamente desprovido de uma visão interseccional e que tenha por objetivo conquistar direitos coletivos. Se há algo que o feminismo neoliberal conseguiu fazer com grande sucesso foi a apropriação de uma causa, que sempre teve por base um cariz de classe, raça, género etc. e transformá-la em slogans vendíveis, do girl boss até à CEO que tem o direito a explorar outras mulheres porque, aparentemente é assim que a meritocracia funciona.
Porém, o objetivo do feminismo é pôr em causa o status-quo do sistema patriarcal e isso a extrema-direita, à qual Meloni pertence, nunca terá a capacidade de o fazer por ser precisamente o expoente máximo do que o sistema patriarcal representa.
O discurso que Meloni dirige às mulheres centra-se quase exclusivamente no papel que a mulher deve desempenhar como mãe, remetendo-a sempre para o trabalho dos cuidados, que é precisamente uma das questões que mais sobrecarrega a mulher. Depois, Meloni é anti-aborto. Por outras palavras, é contra que as mulheres tenham total autonomia e poder de decisão sobre os seus corpos, e tentará fazer a nível nacional o que o seu partido já faz nas regiões que governa: dificultar o acesso ao aborto e à pilula do dia seguinte. Como se sabe, a proibição ou os obstáculos que se impõe a alguém que quer abortar não impede com que essa pessoa aborte, a única diferença é que as mulheres ricas conseguirão arranjar uma forma de o fazer de forma segura noutro país qualquer, enquanto as mulheres mais pobres terão de se submeter a intervenções clandestinas em que muitos casos levam à sua morte.
Outro problema, que é transversal à extrema-direita europeia, é a política anti imigratória e a discriminação racial, e aqui entra o conceito desenvolvido pela socióloga Sara Farris que é o “femonacionalismo”. De forma breve e resumida, o femonacionalismo é a utilização da igualdade de género para promover discursos xenófobos e que têm como principal alvo os muçulmanos. A estratégia é utilizar homens e mulheres muçulmanas como a representação máxima do “opressor-vítima”, legitimando assim os seus discursos islamofóbicos e apresentando-nos uma visão completamente contraria aquela que é e que deve ser o movimento feminista: Interseccional.
Para responder à questão com a qual comecei este artigo, Giorgia Meloni não serve à maioria das mulheres. Porque o feminismo é uma luta coletiva e pessoas como Meloni só se importam com as suas aspirações individuais. Porque as feministas sabem que num país em que o acesso ao aborto é dificultado, sobreviver a uma intervenção desse tipo é um privilégio de classe. Porque Meloni apoia o sistema que tem oprimido e inferiorizado as mulheres desde sempre, enquanto as feministas o combatem todos os dias. Porque as feministas sabem que a solidariedade é também uma forma de resistência, enquanto mulheres como Meloni instrumentalizam a opressão de outras mulheres para gerar ganhos políticos. E por fim, porque já é e será o movimento feminista um dos maiores opositores aos governos de extrema-direita que agora renascem um pouco pelo mundo fora, como sempre o foi. Serão as feministas que vão encher as ruas sempre que se tentar retroceder nos direitos que tanto custaram a conquistar. Serão as feministas a derrotar a extrema-direita, lado a lado, até à vitória final.