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Quem inventou a roda?

Em 1948, as rodas foram aquelas que ajudaram Maria Lamas a imprimir movimento a um mecanismo suspeito, disruptivo, desobediente - o feminismo.

Roda, do latim Rota, peça de formato circular, movida em torno de um eixo central, que imprime movimento a um mecanismo.1

Os historiadores são unânimes em definir a invenção da roda como uma das mais importantes para a humanidade. Quem a inventou? Não se sabe. As rodas do carrinho de bebé, do triciclo, da trotinete, dos patins, da bicicleta, do autocarro, do automóvel, da mota, são uso corrente do nosso dia a dia, nem pensamos muito nelas, excepto quando fura o pneu ou quando respondemos a alguém que nos traz uma ideia aparentemente descabida: “Queres inventar a roda, agora?”.

Foi mais ou menos isto que em 1947 o Governador Civil de Lisboa, ao serviço da ditadura de Salazar, deu a entender a Maria Lamas. Uma exposição sobre livros escritos por mulheres organizada pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) em 1947, presidida por Maria Lamas, foi o gatilho para o encerramento do CNMP e a tentativa do regime salazarista em cercear a oposição política e feminista que desde a 1º República construíam a luta antifascista em Portugal. Se o Governador Civil de Lisboa deu a entender a Maria Lamas que para a “educação e orientação das mulheres” a roda já tinha sido inventada, no caso a existência da Obras das Mães pela Educação Nacional, a jornalista respondeu que iria verificar para depois informar.2 Este gesto militante, deu origem ao livro “Mulheres do meu País”. Publicado através de vinte e quatro fascículos entre 1948 e 1950, foi a primeira grande reportagem sobre as condições sociais e económicas das mulheres em Portugal, o reconhecimento da exploração, opressão e discriminação que o próprio regime sistematicamente ignorava e ocultava.

Refletindo sobre as condições estruturais de um país cujo crime que mais mata são os femicídios, reencontramos Maria Lamas, “olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras mulheres: umas resignadas e heróicas na sua coragem silenciosa; outras indiferentes, entorpecidas; e ainda aquelas que fazem do seu luxo a exibição de um privilégio”.3 E assim, construímos uma jornada feminista para ir ao encontro das “nossas irmãs portuguesas”, e não só, as imigrantes também, as que habitam este lugar no mundo cujas fronteiras políticas definem como Portugal.

Mas afinal, quem somos, de onde vimos, para onde queremos ir?

A Marta conta que já anda nestas andanças há dez anos. A Leonor acabou de chegar mas diz que desde pequenina quer fazer ativismo feminista. Chegou até nós com o livro-manifesto Feminismo para os 99%4, debaixo do braço. Quando a Leonor era pequena, a Ana tinha doze anos, frequentava as aulas de mirandês na escola e o feminismo, tal como a língua mirandesa, era palavra difícil, falada por poucas. A Gabriela, uma das Mafaldas e outra das Patrícias vieram não só pelos feminismos, mas pelos direitos das pessoas LGBT. A Mónica e a Sofia fizeram parte da mesma associação de estudantes que a Maria Francisca, frequentaram as mesmas aulas, fizeram trabalhos sobre desigualdades sociais, discriminação em função da identidade de género e orientação sexual, descobriram a interseccionalidade das opressões. No mesmo ano em que foi aprovado o estatuto da cuidadora e cuidador informal pelo governo, a Mafalda conclui na sua tese de mestrado, que todas as mulheres são potencialmente cuidadoras informais e em contextos de grande vulnerabilidade económica, emocional e psicológica. A Carolina, a Lígia, a Eva, a Teresa, a Ana, fazem parte dos milhares de jovens que em todo o mundo fazem greve para explicar que a mudança exigimos ao sistema e não ao clima.

A frustração de uma promessa falhada em garantir condições de vida dignas para todas as pessoas, a precarização de toda uma geração, o avanço do conservadorismo e a ameaça a direitos conquistados, levou-nos a juntarmo-nos ao apelo internacional da Marcha das Mulheres em Janeiro de 2017. A janela internacional, rasgada nas ruas pelos novos ciclos de luta política e social como os movimentos Ni una Menos e as Greves Feministas, aproximou ativistas e colocou na agenda outras formas de debate. No Porto, por exemplo, estivemos na organização do Encontro de Mulheres/todas as vozes contam em março de 20185, uma experiência de auto organização, inspirada nos históricos encontros de mulheres da América Latina, que deu origem ao compromisso com a primeira Greve Feminista em Portugal.

Somos também ativistas da Greve Feminista Internacional e participamos na organização das manifestações feministas históricas no dia internacional das Mulheres, oito de março de 2019. Fazemos parte de uma geração precária, num país (e mundo) estruturalmente racista e desigual. Para nós, o feminismo, não é uma miragem utópica, mas um projeto de ruptura com a forma como vivemos e nos reproduzimos na sociedade. Procuramos construir alianças, e decidimos assim fazermo-nos à estrada. Esta é a nossa contribuição para o final do ano de 2019: feminismos sobre rodas.6

Começamos dia 8 de novembro e terminamos a 8 de dezembro, três meses antes do dia internacional das Mulheres, dia histórico da Greve Feminista, a greve das mulheres. Entre os dias 13 e 15 de Dezembro, regressamos ao Porto, ponto de partida desta viagem, para o Encontro Feminista Internacional.

Feminismos sobre Rodas é um projeto de ativistas feministas, que leva na bagagem filmes (CineRodas), debates (Rodas de tricot com as Mulheres do meu País), intervenções de rua (Já o ditado dizia…), oficinas para jovens (Feminismo em movimento), performance (São sete dias da Semana) e sobretudo a disponibilidade para a partilha de experiências e histórias de vida. As coordenadas marcam no mapa as cidades de Amarante, Lousada, Barcelos, Amarante, Ovar, Viana do Castelo, Miranda do Douro, Mogadouro, Vimioso e as aldeias de Uva, Atenor e Vale de Algoso. Todas as atividades são gratuitas e qualquer pessoa pode participar.

Em 1948, as rodas foram aquelas que ajudaram Maria Lamas a imprimir movimento a um mecanismo suspeito, disruptivo, desobediente - o feminismo. Continuamos sem inventar a roda, porque muitas das impressões sobre as mulheres antes de abril de 74, ainda ressoam nas paredes bafientas dos tribunais, são os rótulos que nos impingem milagres para o lar, são as mesmas que sustêm uma sociedade para a qual já não existe um meio termo viável. O movimento que o feminismo imprime é um movimento completo, circular que une um ponto a outro, a defesa e a sustentabilidade da vida.

E sim, é como dizem, nós mulheres, ao volante, revolução constante.


Notas:

1 Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa

3 Lamas, Maria (2002). Mulheres do meu país. Lisboa: Editorial Caminho.

4 Arruzza, Cinzia; Bhattacharya, Tithi & Fraser, Nancy (2019). Feminismo para os 99%, um Manifesto. Lisboa: Objectiva.

Sobre o/a autor(a)

Técnica de intervenção comunitária, ativista feminista.
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