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Quem dá a mão a Rui Rio?

O que mudou no PSD com este congresso? Vejamos o conteúdo dos discursos de Rui Rio para responder a essa pergunta.

O congresso do PSD entronizou Rui Rio como novo líder. O conclave tinha previsto o guião da unanimidade, mas essa música foi desafinada porque a oposição interna surgiu fora de tom. Contudo, as dissonâncias foram mais nas disputas de lugares do que no conteúdo político e é sobre esse que vale a pena refletir.

O que mudou no PSD com este congresso? Vejamos o conteúdo dos discursos de Rui Rio para responder a essa pergunta. O novo líder laranja fez de pedra-de-toque da sua mensagem política a mudança de postura: "Tenho como muito relevante, senão mesmo decisivo para o futuro de Portugal, o diálogo entre os partidos." Ora, de uma penada, está ultrapassado o amuo permanente de Passos Coelho, ainda aziado com o resultado eleitoral de 2015.

Muitas vozes viram na vontade de diálogo de Rui Rio o renascer do PSD, que agora entraria novamente em força no jogo político-partidário. O coro de opinadores concluiu quase em uníssono que assistimos ao virar de página no período da política portuguesa que vem desde as eleições legislativas. Alguns, mais afoitos, trataram de garantir que a geringonça enfrentaria novos problemas com o terreno fértil para as tentações centristas do PS. Há um claro voluntarismo nestas análises. Como disse ontem o Feliciano Barreiras Duarte (braço direito de Rui Rio) no Parlamento, o que mudou foi apenas que o PSD "já fez o luto" da derrota das eleições legislativas.

O PSD mudou de líder, não mudou de linha programática. O que Rui Rio tem dito dos temas políticos fundamentais encaixa-se perfeitamente no guião da reforma de Estado que Paulo Portas apresentou e Passos Coelho subscreveu. As obsessões foram elencadas no discurso do congresso por Rui Rio. Da segurança social à economia, nada de novo foi acrescentado.

A recorrente conversa sobre a insustentabilidade da segurança social é um dos pilares do discurso. Veja-se o que disse Rio: "O valor da dívida implícita do nosso sistema de pensões atinge valores muito altos em termos de percentagem do PIB. Este indicador mostra desequilíbrios financeiros futuros, mas sobretudo alerta-nos para o problema da sustentabilidade." Compare com o que Passos Coelho disse no passado: "Temos um problema de sustentabilidade e temos de resolvê-lo." Quaisquer semelhanças não são meras coincidências.

Esta conversa sobre a segurança social foi a que o PSD justificou para cortar pensões e apoios sociais e que justificava a vontade de cortar 600 milhões de euros nas pensões. Rio afina pelo mesmo diapasão e tem o mesmo objetivo: plafonamento da segurança social e abertura do negócio aos fundos de pensões privados.

A discussão na área da educação é exatamente a mesma do passado: Rio contesta a reversão da política de Nuno Crato, defendendo o ex-ministro e o seu legado de destruição da escola pública. Ainda se lembra de quem reforçou a verba dos colégios privados enquanto cortava na escola pública? Recorda-se das crianças do 4.º ano em pânico com os exames? Pois, Rio anseia por este regresso ao passado.

Como não há duas sem três, na área da saúde assistimos à mesma vontade de agradar aos privados e às elites: "O lucro no setor da saúde não pode ser visto como algo de ilegítimo", Rio dixit. Pois é, sempre o negócio para os privados a nortear a política do PSD.

E sobre os rendimentos das famílias? A resposta de Rio foi que "o aumento do consumo privado é o objetivo pretendido, ou seja, deve ser a consequência do crescimento e não o seu principal motor". Isto é exatamente o que Passos Coelho pensava quando defendia que devíamos cortar salários para ganhar competitividade. A realidade mostrou bem como estão errados: a recuperação de rendimentos ajuda as famílias e a economia nacional.

O programa de Rui Rio não é diferente do que tinha Passos Coelho. O PSD está refém da política da austeridade e a definhar. O mundo mudou, mas o PSD não. Quando Rui Rio procura consensos novos para políticas velhas, sabe que não os vai encontrar. Apenas procura uma tábua de salvação para recuperar a credibilidade perdida pelo PSD. Alguém lhe quer dar a mão?

Artigo publicado no jornal do “Diário de Notícias” de 22 de fevereiro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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