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A queda do Olimpo

Macron, que surfou a onda do descrédito dos partidos políticos para chegar ao poder, está agora a ser engolido pela afronta da sua agenda ultraliberal e a provar o mesmo veneno.

Emmanuel Macron sonhou alto. Tão alto, que quando convidado a escolher que tipo de chefe de Estado seria, nomeou-se presidente Júpiter. Para ele, nada menos que o lugar do rei dos deuses, o topo da hierarquia da mitologia romana. Ora, já diz o ditado que “quanto mais alto, maior é o tombo”. Os “coletes amarelos” aí estão para demonstrar inequivocamente que Macron é feito de carne e osso.

O movimento dos “coletes amarelos” é um grito contra Macron. A palavra de ordem “Macron démission” não deixa dúvidas sobre o alvo ou o objetivo. Mas, é mais do que isso, é o levantamento de um povo que recusa vergar-se às desigualdades e à pobreza.

O anúncio de um novo aumento dos combustíveis foi o rastilho do levantamento popular. Num país em que dois terços da população ativa trabalha fora da sua localidade de residência e, destes, 80% usam o seu veículo pessoal para essas deslocações, a notícia caiu que nem uma bomba. O governo queria taxar mais 6,5 cêntimos por litro o gasóleo em 2019, depois de já ter aumentado 7,6 cêntimos por litro no início de 2018. E prometia novos aumentos de 6,5 cêntimos por ano para 2020 e 2021.

A explicação do governo francês para este aumento era uma rotunda mentira: dizia que fazia parte de uma estratégia de combate às alterações climáticas. Só que, ao mesmo tempo, propunha cortar em mais de 11.000 quilómetros a linha férrea francesa. A cereja do topo do bolo deste embuste era o desvio de 500 milhões de euros da taxa sobre combustíveis para tapar o buraco do défice orçamental e compensar a eliminação do Imposto sobre as Grandes Fortunas.

Tirar aos pobres para dar aos ricos. Sacrificar quem já tem salários baixos para proteger as fortunas. Aumentar os impostos sobre os trabalhadores para manter as mega isenções fiscais aos grandes grupos económicos. Cortar no Estado Social e nas conquistas sociais de décadas, para garantir mais mercados para os lucros da elite. Assim tem sido a política de Macron. Por isso mesmo, os “coletes amarelos” mudaram-lhe o cognome para “o presidente dos ricos”.

Este contexto explica como o movimento dos “coletes amarelos” tem um enorme apoio popular. É um movimento genuinamente popular, um levantamento de quem tem ficado para trás na corrida da globalização. Por isso mesmo começa nas periferias, para onde são empurradas as carteiras mais vazias e as contas bancárias menos recheadas. Mas, como o ataque é generalizado às classes médias e baixa, constrói pontes entre trabalhadores e trabalhadoras, pensionistas, trabalhadores independentes e de pequenos empresários.

Alguns assustam-se com a violência das ruas, outros apontam os oportunismos de quem pilha as lojas. Já dizia Brecht que “do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”. O enorme apoio do povo francês aos “coletes amarelos” mostra que a maior violência é o dinheiro acabar antes do fim do mês.

Macron, que surfou a onda do descrédito dos partidos políticos para chegar ao poder, está agora a ser engolido pela afronta da sua agenda ultraliberal e a provar o mesmo veneno. Os projetos liberais, neste século XXI, têm vida curta e são apenas uma cilada para votante desprevenido, que o digam os eleitores do Partido Socialista Francês enganados pelo En Marche. O silêncio de Macron, que demorou 21 dias para falar ao país, foi sentido como desprezo perante o seu povo. Os muros do Eliseu nunca pareceram tão altos. Veremos se as cambalhotas de ontem, onde Macron desautoriza o governo e propõe aumentos do salário mínimo, chegam para acalmar o povo.

Há quem diga que os “coletes amarelos” são de extrema-direita, apesar disso já ter sido rejeitado. Há quem diga que são da esquerda radical, apesar disso não estar ainda provado. Creio serem a voz mais audível da população que está a ficar para trás com a globalização, com o dumping dos direitos laborais e rendimentos, com o desemprego, com dirigentes políticos corruptos e aldrabões, com economias que continuam a servir a especulação à custa do empobrecimento generalizado. Este é “o sistema”.

Se a extrema-direita acena com discursos populistas para responder a este descontentamento, a verdadeira resposta para um melhor futuro da população encontra-se à esquerda. É que só à esquerda se sabe dar nome “ao sistema”: chama-se capitalismo. E só deste lado tem uma alternativa.

Artigo publicado no jornal “Público” a 11 de dezembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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