Está aqui

Quanto tempo perdido!

Há quanto tempo sabemos que, em Setembro próximo, os civis e militares norte-americanos, colocados na Base das Lajes, não ultrapassarão as 165 pessoas?

Há quanto tempo sabemos que o número de trabalhadores/as portugueses/as, ao serviço da Base, será, drasticamente, reduzido, para números que, na melhor das hipóteses, rondarão os cerca de 400?

Há quanto tempo sabemos que as centenas (se não, milhares) de postos de trabalho indiretos, gerados pela presença dos militares norte-americanos, na ilha Terceira, têm vindo a definhar a olhos vistos?

Há quanto tempo sabemos que as ‘guerras de alecrim e manjerona’ travadas, entre o Pentágono e o Senado, além de não serem da nossa conta, nos vão utilizando, ora como moeda de troca, ora como elemento de pressão?

Há quanto tempo temos sinais, indesmentíveis e oficialmente confirmados, de que a dita Base perdeu importância estratégica, na política norte-americana?

Há quanto tempo as sucessivas administrações norte-americanas nos fazem ‘juras de amor eterno’, enquanto, simultaneamente, tratam de defender os seus múltiplos interesses, numa ‘realpolitik’, cuja tradução para português é “amigos, amigos, negócios à parte”?

Há quanto tempo sabemos que 60 anos de ocupação de um autêntico feudo, na ilha Terceira, pelos militares norte-americanos, nos deixaram, como herança, a maior e mais perigosa pegada ecológica, existente na nossa Região?

Há quanto tempo vamos renovando, tacitamente - sem queixas, denúncias ou reivindicações -, o acordo bilateral (entre os estados português e norte-americano), sabendo que para nós tem força de lei, mas para eles não passa de um ‘acordo de cavalheiros’ que a nada obriga?

Há quanto tempo somos, ciclicamente, confrontados/as, com os justos alertas dos/as trabalhadores/as portugueses/as, na Base, fingindo que não os/as ouvimos dizer (tão alto quanto lhes é possível) que, naquele reino, ‘manda quem pode e obedece quem deve’?

Há quanto tempo sabemos que a administração norte-americana se prepara para fechar a Base (que é nossa!) e levar a chave consigo, garantindo um feudo, bem no meio do Atlântico, para o que der e vier (e eles bem sabem que, mais cedo do que tarde, ai virá, virá!)?

Há quanto tempo sabemos que o uso militar daquela Base invalida toda e qualquer pretensão de implementar, na ilha Terceira, uma verdadeira estratégia de desenvolvimento económico e social que rentabilize, em benefício dos Açores, a nossa magnífica posição geo-estratégica?

Há quanto tempo sabemos que a existência da Base, ao serviço dos norte-americanos, não garante qualquer posto de trabalho, uma vez que, ao longo dos anos, eles têm vindo a diminuir, silenciosa mas permanentemente?

Há quanto tempo sabemos que a nossa autonomia também se afirma e defende, pela recusa duma total dependência de um amo e senhor, que nos usa quando lhe dá jeito, mas nos rejeita e adia…até um qualquer dia?

Digam-me lá, há quanto tempo?!

Por tudo isto e o mais que não cabe neste espaço, se tivermos dignidade, orgulho e ambição, se quisermos servir os/as Açorianos/as e contribuir para o seu desenvolvimento, se formos corajosos/as e exigentes, só podemos reclamar do Governo da República a denúncia do Acordo Bilateral!

Já não há nada para ‘renegociar’! Agora, é tempo de fazer as contas, apresentar as faturas (económicas, sociais, ambientais e outras) e garantir que, quem tanto nos deve, não fugirá às suas responsabilidades.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
(...)