Está aqui

Quando o pormenor e o acaso deixam de o ser

O clima em que o país se encontra determina que tudo hoje possa dar origem a um grande caso político.

Todos se lembram bem do discurso de Paulo Rangel sobre a claustrofobia democrática que então se vivia sobre o reinado de Sócrates. Aliás, foi sobretudo esse discurso que colocou o então deputado do PSD no mapa. Estávamos em 2007. Como é evidente, olhando hoje para o que então se passava, ficamos com uma boa noção de que o pior, muito pior, ainda estava para vir.

As declarações do ex-diretor de informação da RTP sobre o suposto saneamento político a que foi sujeito são paradigmáticas a este respeito. Não que tenhamos certezas sobre o que se passou, mas porque refletem todo um clima de guerra política. Como é evidente, estamos longe de saber se as coisas se passaram efetivamente como Nuno Santos as reproduz. Não sabemos quais as verdadeiras intenções do Conselho de Administração da empresa, temos naturais dúvidas sobre como o acesso às imagens das manifestações se processou e, claro, dificilmente podemos afirmar que existiu de facto interferência de algum membro do Governo neste processo.

De qualquer modo, o clima em que o país se encontra determina que tudo hoje possa dar origem a um grande caso político. Tenha ou não acontecido perseguição política, a suspeição generalizada e a tensão latente que se sente em toda a sociedade, determinam que o pequeno possa ganhar rapidamente uma grande dimensão. O pormenor e o acaso deixam de o ser. Estamos esclarecidos quanto ao ponto a que o país chegou. As posições extremaram-se, a razoabilidade desapareceu e tudo hoje se tornou sensível. Os ânimos andam extraordinariamente exaltados e os atores movem-se com um nervosismo explosivo.

Chegou-se a um momento onde apenas as ruturas parecem viáveis. Deixaram de ser possíveis meias soluções. Temos pena?

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
(...)