Proponho considerar o ataque de Trump contra a Venezuela partir de três perspetivas que convergiram para este desenlace anunciado:
A prioridade absoluta que o capitalismo mais brutal, nesta fase da história, confere à produção, exportação e queima de petróleo como motor de crescimento da economia.
Em segundo lugar, a negação de toda a investigação científica que aponta para consequências devastadoras para a sobrevivência humana, em resultado da queima de combustíveis fósseis.
Em terceiro lugar, o desprezo absoluto pelos direitos dos povos à autodeterminação, sempre que os seus territórios sejam uma fonte de recursos naturais ou tenham uma localização geoestratégica relevante para o apetite expansionista do capital.
Na minha opinião, existe à escala global um polígono político de quatro vértices, localizados em Moscovo, Pequim, Telavive e Washington. Cada um destes vértices é o centro de uma estrutura de poder autoritária, antidemocrática, que despreza em absoluto os direitos humanos, e que revela uma ambição desmedida de expansão territorial. A Venezuela é, por estes dias, a ponta do iceberg.
Apesar de, em 2025, os Estados Unidos terem sido o maior produtor mundial de petróleo, a verdade é que o petróleo que produzem tem uma composição bioquímica que o classifica como um petróleo leve, o que obriga a indústria a importar petróleo pesado. Por seu lado, a Venezuela é detentora das maiores reservas mundiais de petróleo pesado. As reservas de petróleo na Venezuela são maiores do que as da Arábia Saudita.
Durante o século XX, as petrolíferas americanas controlavam toda a extração de petróleo na Venezuela, mas depois da Revolução Bolivariana, as empresas americanas, nomeadamente a Exxon e a ConocoPhillips abandonaram o país. A exceção foi a Chevron, que, ao longo dos anos, foi navegando entre a complacência do governo venezuelano e o apoio do governo americano, e que mais recentemente, num esforço de lobbying, conseguiu o apoio de Trump.
Sem tecnologia própria, a Venezuela de Chávez e Maduro sempre dependeu de terceiros para a exploração do petróleo, mais recentemente, refugiou-se no apoio da China. O governo chinês partilha da ambição expansionista, da gula pelo crescimento, da indiferença pelos direitos humanos mais elementares, dos seus parceiros no xadrez político global. A diferença reside na sua maior dissimulação tática.
Em setembro, a China, que é o segundo estado no mundo a investir a maior fatia do seu orçamento neste campo, exibiu para o mundo uma capacidade militar e armamentista poderosa e modernizada. No entanto, a tática da China é diversa do expansionismo mais feroz da Rússia, de Israel ou dos Estados Unidos. Sob a capa da cooperação, a China investe nos países que podem representar um ponto de apoio para conquistar influência na região. Em contrapartida, ganha acesso aos seus recursos naturais.
A China Three Gorges Corporation detém cerca de 21% da EDP, em Portugal. Em 2022, através da Focac / Fórum de Cooperação China/África, a China investiu cerca de 250 mil milhões de dólares em infraestruturas diversas em diferentes países africanos na construção de estradas, ferrovia, portos de mar; além de realizar empréstimos destinados a projetos de desenvolvimento em alta tecnologia.
Dentro da mesma linha de ação, a China tem vindo a realizar investimentos na Gronelândia e, em maior escala, na Venezuela. A receita é simples: investir, recolher dividendos, negociar trocas comerciais mais favoráveis e obter ganhos de influência política. A voracidade expansionista de Xi Jinping, contudo, é a mesma de Trump, Netanyahu e Putin.
Trump, que, ao contrário da China, tem a subtileza de uma galinha, manda os seus ninjas de estimação, invade, dispara para todos os lados, rapta e muda o governo para outro mais ao seu gosto.
Ao fim do primeiro quarto do século XXI, o capital está mais sedento do que nunca por petróleo, além de outras riquezas naturais. A exploração desenfreada destes recursos, tem agravado as alterações do clima a um nível nunca antes registado. As ondas de calor no verão passado, os incêndios incontroláveis, as tempestades, as chuvas e inundações são avisos mais que eloquentes.
O combate à injustiça, à desigualdade, à exploração do trabalho, à violência, ao desrespeito pela vida e pelos direitos e liberdades, tem necessariamente que integrar a defesa do ambiente. A natureza autofágica do capital só é superada pelo seu desprezo pela vida humana, isso significa que o combate pelos direitos humanos tem que integrar os direitos ambientais.