Está aqui

A propósito da cidade líquida — os usos e abusos dos conceitos

Só os pobres de espírito renunciam ao exercício da herança como exercício de acumulação mas também de crítica.
“Vem isto a propósito da folha de sala censurada da Regina Guimarães” - Foto de Teatro do Campo Alegre no Porto, onde a peça “Turismo” esteve em cena no primeiro fim de semana de fevereiro

Quem julga que as palavras são um receptáculo vazio de significado flutuante está a fazer um típico exercício de sobreinterpretação, isto é, a criar um sentido que é avesso ao atrito dos factos. Entre esses factos encontra-se — hélas! — o próprio autor que, bem ou mal, forjou um sistema de pensamento dentro do qual os seus conceitos ganham consistência. As palavras não querem dizer tudo e o seu contrário, a não ser que abdiquemos de critérios de inteligibilidade e de comunicabilidade.

Vem isto a propósito da folha de sala censurada da Regina Guimarães, nomeadamente quando critica o abuso interpretativo do Paulo Cunha e Silva a respeito da “cidade líquida”, termo cunhado por Zygmunt Bauman.

O sociólogo polaco identifica, na modernidade, dois momentos: o período da modernidade (sólida) e o período da pós-modernidade (ou modernidade líquida). A fase da modernidade sólida seria, segundo ele, marcada pelo controle do mundo, pela orientação para a ciência, para a técnica e para a racionalidade — características destinadas a eliminar quaisquer ambivalências. Na era da solidez, as dubiedades deveriam ser realinhadas, classificadas e rotuladas, explicadas pela ciência e submetidas à técnica. A modernidade sólida, embora tendo, para o autor, a marca da dominação e da subjugação à razão e à técnica, beneficiava de um ímpeto organizador e classificatório que contribuía, ainda que de forma ambígua, para unir o mundo.

No período da modernidade sólida, a igualdade era mais determinante do que a liberdade individual e mais valorizada do que os impulsos distintivos. Contudo, a evolução técnica levou a que, eventualmente (nas últimas décadas do século XX), se esbatessem as fronteiras entre tempo e espaço, liquefazendo os principais sustentáculos da modernidade “sólida”. Donde, o principal atributo da modernidade “líquida” seria já não a manutenção de um ideal comunitário e a respetiva uniformização de condutas e de estilos de vida, mas, antes, a mobilidade, a celeridade do quotidiano, a liquidez das relações, a radicalização do individualismo (a “furiosa ‘individualização’”, nas palavras de Bauman) e da competição, a desconfiança e o distanciamento das relações de sociabilidade que assentam em relações de interdependência. A identidade individual torna-se transitória, esfumam-se as linhas orientadoras comunitárias que regem o comportamento individual e a principal via de construção identitária passa a ser o consumo. A modernidade líquida reflete uma sociedade onde consumir é a principal fonte de prazer e onde a dependência do consumo é indestrinçável da liberdade individual e da construção identitária. Na modernidade líquida, o culto da individualidade agudiza-se ao ponto de o “direito” a ser “distinto”, a ser “único”, adquirir contornos de “dever”.

Já a cidade é o espaço ou contexto que, na modernidade líquida, condensa todas as efemeridades. A vida na cidade promove o encontro fugaz entre as pessoas, sem que seja necessário investir em compromissos, em obrigações mútuas ou no estreitamento de laços. A “cidade líquida” prefere a velocidade à permanência, a mudança à solidez. Tudo nela é instável: a habitação, o trabalho, os laços familiares e afetivos. O próprio modus operandi das instituições é formatado pela transitoriedade: os eventos são instantâneos, os movimentos e ligações são passageiros, o momento presente é dominado pela espetacularização, os happenings oficiais e corporativos pontuam a vida citadina.

Enquanto na fase da modernidade sólida o principal receio dos indivíduos consistia na eventual inadequação face à norma vigente (na não pertença), na modernidade líquida o que mais os assombra é a possibilidade de não se diferenciarem, de não se destacarem — e, consequentemente, de soçobrarem. A sobrevalorização do individualismo contemporâneo, ao mesmo tempo que confere maior agência individual — libertando as pessoas das amarras dos laços sociais e institucionais — gera medo e incerteza, levando-as a sentirem-se frágeis e vulneráveis. A cidade líquida é, assim, o contexto onde convivem vários indivíduos, desconhecidos, mas em proximidade extrema. A alteridade é olhada com desconfiança e estranheza e, face ao receio de perigos imaginados e da instauração do caos, a cidade líquida torna-se hiper vigilante: com a delinquência ao virar da esquina, instalam-se câmaras de vigilância, constroem-se muros, segrega-se territorialmente, separa-se o “nós” dos “outros”, a ordem do caos, e criam-se ‘ghettos’ — sem se compreender que é com a criação de fronteiras com vista a separar pretensas diferenças que a cisões emergem.

A cidade líquida é pois uma distopia que ameaça concretizar-se nas nossas urbes. Ninguém esquece a liberdade fantasiosa que o Paulo (amigo de um dos autores deste artigo) tinha na apropriação e adulteração de conceitos. Ele era uma pessoa de fantasias e de sonhos, nem sempre, como é o caso, amigos do rigor. Percebemos bem que o Paulo tenha seguido o seu divertido instinto pós-moderno de ver na cidade líquida um sinónimo de caos criativo a partir do qual surge o rizoma dos projectos. Mas, convenhamos, afasta-se (e de que maneira!) da raiz do conceito.

Querer, em seu nome, como que honrando a sua memória, exercer um direito póstumo de censura é um absurdo. Só os imbecis sacralizam e congelam os mestres. Só os pobres de espírito renunciam ao exercício da herança como exercício de acumulação mas também de crítica.

Por João Teixeira Lopes e Tânia Leão, sociólogos

Sobre o/a autor(a)

(...)