Está aqui

Primeiro de Maio só de 15 em 15 anos, feriado em Abril, só no dia dos enganos

A Revolução do 25 de Abril de 1974 aproxima-se a passos largos dos 50 anos.

A marcha impiedosa do tempo vai ceifando a vida, e consequentemente a memória viva, de quem sofreu a mão pesada do Estado Novo e de quem o combateu, perdendo paulatinamente as comemorações do 25 de Abril o empenho e o vigor generalizado do sentimento popular.

Por mais que a geração nascida depois do 25 de Abril de 1974 tenha nas suas fileiras quem continue a evocar os valores de Abril, a maioria dos que integram essa geração nutrem pelo 25 de Abril um sentimento de indiferença, o que tem favorecido que outros, no entendimento dos quais o 25 de Abril foi pernicioso, destilem alto e bom som o seu ódio e o seu reaccionarismo.

A acelerada evolução tecnológica arrastou as sociedades ocidentais para a impaciência e para o imediatismo, para o consumismo e para a superficialidade do pensamento, do ensino e da comunicação, tudo num perigoso cocktail que aponta para o fim das ideologias e para uma visão meramente pragmática das escolhas políticas.

A renúncia à perenidade, tem levado a um perigoso estado de liquidez da sociedade, precarizando-se as relações pessoais, laborais e arrendatícias, entre outras, sendo a dinâmica económica assumida por uma constante instabilidade dos agentes económicos. Reina hoje a insegurança de trabalhadores, inquilinos e até empresários. O que ontem era razoavelmente certo, hoje cai numa espécie de tômbola da sorte, insensível aos mais básicos valores da dignidade humana e da solidariedade.

É tempo de parar e pensar. Porque em breve não faltará quem, intencionalmente ou por algum pragmatismo impregnado de indiferença, venha dizer, como cantava Sérgio Godinho “Primeiro de Maio só de 15 em 15 anos, feriado em Abril, só no dia dos enganos”. É esta a dura realidade que vivemos, e nessa medida todos os esforços para combater esta realidade são poucos.

À esquerda, não faltará decerto quem veja nestas linhas uma posição derrotista ou de desvalorização do 25 de Abril e do seu significado. Mas quem o faz, simultaneamente enterra a cabeça na areia e nega ingloriamente a realidade perigosa que vivemos.

Artigo publicado a 27 de abril no “Jornal do Centro”

Sobre o/a autor(a)

Advogado, ex-vereador a deputado municipal em S. Pedro do Sul, mandatário da candidatura e candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Lisboa nas autárquicas 2017. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
(...)