“Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”. Esta frase bonita que vemos muitas vezes nos perfis motivacionais de Instagram, não passa de uma falácia. No dia em que acreditarmos que não trabalhamos porque fazemos o que gostamos, entramos na espiral do neoliberalismo.
Quando decidi que queria ser atriz, avisaram-me que ia ter uma vida difícil. Avisam-nos sempre disto! Na altura perguntei o que era isto de vida difícil. Mas ninguém me soube explicar.
Hoje, eu e milhares de pessoas que trabalham na cultura sabemos o que é uma vida difícil. É ser a Olívia Patroa e a Olívia Costureira, preencher formulários de candidaturas, fazer orçamentos, investir no Instagram para conseguir aumentar o número de seguidores, falar com todas as pessoas na esperança de conseguir um trabalho, fazer um self-tape de manhã, gravar uma série à tarde e ir fazer espetáculo à noite, estar sempre disponível, abdicar do tempo de descanso, sorrir e acenar. E isto tudo, sem proteção laboral e social.
Que liberdade é esta?
É a liberdade, dizem-nos. O quê? Pergunto eu.
É a liberdade de poderes escolher que projetos queres fazer. Mas que liberdade é esta? A liberdade de trabalhar sem parar para respirar, para tentar garantir pouco mais que a sobrevivência?
Os salários são baixos. Estamos a falsos recibos verdes. O Inquérito aos Profissionais Independentes das Artes e Cultura realizado pelo Observatório Português das Atividades Culturais diz que metade dos inquiridos tem um rendimento mensal de 600€. Sem receberem subsídio de férias, nem subsídio de Natal. E eu faço parte deste grupo.
Vivemos numa hiperatividade constante, somos obrigadas a trabalhar mais e mais, a aceitar todos os projetos e a encaixar tudo na nossa agenda. E foi isto que não me souberam responder no dia em que disse que ia ser atriz.
Não existem funções em que tenha de haver precariedade
O Ministro da Cultura diz que “Nós não podemos ter como ambição acabar com todos os vínculos precários na cultura, que isso não é desejável. Há profissões, há funções, que pela sua natureza têm de manter esta possibilidade de manter vínculos precários”. Não aceitamos!
Sim podemos ter como ambição: vínculos laborais, contrato de trabalho com um salário justo, direitos, proteção laboral e social adequadas. Não existem funções em que tenha de haver precariedade. Existe um sistema neoliberal que necessita de precarizar o trabalho para o transformar em mercadoria e com isso lucrar.
Nós não somos mercadorias à venda com etiquetas Made in Portugal e códigos de barra, somos pessoas e temos direito ao trabalho, proteção laboral e social, habitação, saúde, educação, descanso, lazer, salário justo. Sim, queremos uma vida boa.
Sem trabalhadores e trabalhadoras não existe cultura
No Bloco de Esquerda sabemos que é possível. E também sabemos que sem trabalhadores e trabalhadoras não existe cultura. Por isso, as condições de trabalho têm de ser um dos eixos centrais da política cultural. Mas para isto acontecer, precisamos de mais organização coletiva e de mais mobilização. Precisamos de estar presentes nas ruas, nos sindicatos, nas associações do setor e mobilizar todas a população. Porque o direito à fruição e criação cultural está consagrado na constituição.
E quando existir uma pessoa que diga que quer trabalhar em cultura, a resposta não seja que é uma vida difícil, mas uma vida boa.