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Praia Dona Ana – o 1.º episódio da 2.ª temporada

A “Praia Dona Ana” contava com um guião semelhante ao de outras tantas séries de desastre ecológico, causou grande furor nos meios de comunicação social. Com o passar dos episódios aquilo que se vê na nova praia em nada se equiparava ao seu estado natural.
Foto de António Rodrigues

A Praia Dona Ana, outrora considerada a mais bonita de Portugal e premiada a nível nacional e internacional pela qualidade das suas areias características e pela biodiversidade que apresentava (como a classificação, agora perdida, de “Qualidade de Ouro”, pela Quercus), foi alvo de uma intervenção promovida pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) – subentidade do Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, com o consentimento da Câmara Municipal de Lagos.

Durante as obras que mais pareciam fazer parte da primeira temporada de uma série que retrata um crime ambiental sem recuperação, aquele que é o espectador atento descobriu logo que os objetivos dos procedimentos tomados, explicados pelo Ministro (que continua em funções), e que, supostamente, em tudo tinham a ver com a segurança das pessoas e com o atrasar da deterioração das arribas, e em nada diziam respeito aos interesses dos privados que se instalaram por cima da falésia, esquecendo a contribuição negativa que tiveram para o seu estado, não batiam certo com o que realmente se passava – as obras em nada se relacionaram com uma preocupação verdadeira relativa às pessoas e ao estado da praia mas sempre tiveram em vista beneficiar aqueles que promoviam o turismo de massas e que contribuíram para a instabilidade do estratos e substratos rochosos, com o peso sobre estes colocado, com a destruição do coberto vegetal e a impermeabilização do solo.

Praia de Dona Ana - Foto de António Rodrigues“Praia Dona Ana”, que, certamente, contava com um guião semelhante ao de outras tantas séries de desastre ecológico, como o da mutilação que foi operada na Praia da Rocha nos últimos trinta anos do século passado, causou grande furor nos meios de comunicação social. Com o passar dos episódios, durante alguns meses, aquilo que se vê na nova praia em nada se equiparava ao seu estado natural. Houve um aumento da extensão do areal em 25 metros relativamente à atual, entre a arriba e o mar, sendo soterradas rochas já conhecidas e admiradas por todos; para além disso, foi construído um dique de retenção, que liga a praia ao conhecido Leixão dos Artilheiros. Aqueles que gostavam de contemplar a arte natural que não existia em mais lado nenhum deixaram de o poder fazer. Os que, depois das obras, sem saberem da sua existência, visitaram a famosa Dona Ana só conseguem descrever o que viram como sendo uma grande desilusão.

Finda a primeira temporada, que custou aos contribuintes cerca de dois milhões de euros (sem pedido de opinião, que devia ter sido feito, ao tratar-se de um assunto de interesse público e preservação ambiental e do património natural), todos ansiavam o início da segunda, que coincidiria com o início da agitação marítima. Queriam saber o que se ia passar. Uns diziam que tudo se manteria igual, outros não eram tão adeptos dessa ideia. O suspense estava criado.

Há cerca de duas semanas, deu-se, então, o grandioso momento e na estreia d’ “O 1.º episódio da 2.ª temporada”, com uma pequena tempestade que em nada se compara às tempestades que se seguirão nos próximos episódios, dez dos vinte e cinco metros do areal de má qualidade adicionado (composto por lamas, areão e conhas) foram levados pelo mar – esse seria o ponto de estabilização da praia, segundo os entendidos, durante a época do inverno, mas ainda não entrámos bem nessa época, o que torna tudo ainda mais estranho. O aspeto da praia ficou pior, no entanto a APA afirma estar a dar-se o processo natural das coisas e que tudo terá um “final feliz” – só não se lembrou de pensar no procedimento normal da natureza quando interviu no sentido de melhorar algo que não fora melhorado, como a instabilidade das arribas, piorando aquilo que não podia ser estragado e que o foi efetivamente.

As arribas tendem a ser erodidas e consequentemente a recuar naturalmente e o Homem não poderia ter agido de forma a acelerar o processo. Se o fez, então que se trate o problema onde o mesmo existe e não se disfarce o misto de interesses que o turismo de grande escala tem neste tipo de situações.

Do que a história nos ensinou, podemos tirar uma conclusão: repetir, atualmente, o que não faz sentido, não tendo em conta a voz dos cidadãos e associações especialistas na matéria como a associação ambientalista algarvia Almargem, que demonstra até à exaustão o absurdo da intervenção, é um erro tremendo.

Praia de Dona Ana - Foto de Daniel da LuzUrge propor uma política ambiental de defesa dos valores naturais únicos, para a preservação das espécies da fauna e flora e a promoção de um turismo de qualidade e duradouro. Urge saber aplicar o dinheiro público em medidas de correção dos erros inicialmente cometidos e que passam: “pelo abandono planeado e faseado de edificações em zonas de risco e a sua renaturalização, sob pena de ser o ambiente e todos nós, cidadãos contribuintes, a pagar a defesa de uns poucos empreendimentos turísticos que arrecadaram bastos lucros sugando as zonas paisagísticas onde se inserem e, depois, virem pedir socorro ao dinheiro público para se porem a salvo do mar; e pelo forte condicionamento dos fatores 'antropizantes', perenes ou pontuais, exercidos sobre o litoral de arribas, com delimitação de percursos terrestres, privilégio das formas de transporte ligeiras, proteção das arribas, promoção de ações de sensibilização para os aspetos geomorfológicos, fauna e flora locais.”

O primeiro episódio teve ainda uma segunda novidade, dado que andava muito disfarçada noutros tempos e só agora se tornou bastante visível, no que respeita ao agravamento das condições ambientais da praia e também da saúde pública. Um estranho tubo, supostamente utilizado para escoar águas da superfície para a praia, tem transportado, também, resíduos provenientes de casas particulares, situadas na falésia, provavelmente também construídas em terrenos de Domínio Público Marítimo, perto da praia, cujas ligações a esse canal de escoamento são feitas de forma ilegal e cujo efeito pode ser nocivo em determinados aspetos, mesmo a nível de saúde pública porque parte dessa água fica acumulada no areal. Um quarto daquela que era a melhor praia tornou-se um autêntico esgoto a céu aberto, do qual as nossas autoridades, que sabem do que se passa, são cúmplices.

Portugal, de facto, não pode mais. Melhor não estamos; na mesma também não. Para o pior é que se trilha caminho e sem possibilidade de retrocesso.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Gestão na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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