Existem duas razões para Trump ter enviado a sua visão moderna das SS para Minnesota: uma é a tentativa de fazer história mudando a cor de um bastião democrata; a outra é eliminar o seu futuro adversário nas presidenciais, Tim Walz.
Este estado foi até aos anos 30 predominantemente republicano e desde então, nas eleições estatais, tem oscilado entre os dois partidos do poder. Mas em eleições presidenciais acontece algo bastante diferente, este estado não muda a cor do seu partido desde 1976, mesmo com a avassaladora vitória de Ronald Reagan em 1984, Minnesota foi um dos dois bastiões democratas que aguentaram, a nível de votações, a onda do reaganismo. Ninguém é capaz de negar que seria um feito histórico se Trump conseguisse converter a “terra dos mil lagos”. Como tentará fazer isso? Está a fazer o que a extrema direita faz melhor, criar uma sensação de insegurança e virar a opinião pública contra os seus representantes políticos.
Trump está neste momento a tentar uma nova abordagem àquilo que tentou fazer, e fracassou, no estado de Washington DC (o outro estado que se manteve democrata nas eleições de 1984). Aí usou a Guarda Nacional para combater a sensação de insegurança, combater a imigração ilegal e passar uma imagem de força. Mas como a sensação de insegurança não deixa de ser uma sensação e não se torna realidade, houve mais imagens de militares a tratar e limpar os espaços públicos da capital do que pessoas a serem detidas pela Guarda Nacional.
Isto traz-nos a Minneapolis, com essa tentativa falhada, Trump precisa de uma força de paramilitar que faça o que pede e crie a realidade que ele precisa. Enquanto a Guarda Nacional se restringia a obedecer à lei, vemos agentes da ICE constantemente a ignorar ou contornar a lei, seja por conveniência, seja por ignorância (maior parte das vezes ambos). Vemos isso quando por exemplo quando tentam entrar no consulado do Equador à procura de imigrantes ilegais, quando detêm uma criança de 5 anos para atraírem o pai e serem ambos deportados, quando param qualquer pessoa que veem na rua que parece ser de outro país e a deportam sem devido processo judicial. Apenas para Trump poder dizer que parou um número exageradamente grande de imigrantes ilegais.
Esta presença de enormes quantidades de agentes federais põe pressão e desvaloriza as estruturas do governo local. Não é, de todo, uma coincidência que isto se esteja a passar no estado do governador Tim Walz.
Tim Walz foi escolhido pelos democratas para ser o vice-presidente de Kamala Harris. A entrada de Tim na campanha de 2024 foi enunciada como o grande trunfo de Harris, um homem de família tradicional, branco, que tinha servido no exército, que era conhecido pela seu espírito de apoio social, entrava em cena para captar o voto do eleitorado heteronormativo branco que tinha fugido para Trump. Fez uma boa campanha, sendo o ponto alto o debate contra JD Vance. Neste momento, o governador do Minnesota é um dos nomes apontados a ser o candidato presidencial dos democratas, como tal, é um alvo a abater para o presidente dos Estados Unidos da América.
Com agentes federais a atuarem no limbo da lei no seu estado, Tim Walz vê-se confrontado com com duas escolhas, deixar Trump fazer o que quer, perdendo assim o apoio do seu eleitorado mais à esquerda e democrata, minando assim as suas chances de ser candidato presidencial, ou entrar em guerra aberta com o governo federal, o que fará com que perda financiamento federal (como Trump já ameaçou fazer em outros estados nos quais os governadores se opuseram às medidas inconstitucionais de Trump) e que seja considerado como um apoiante da imigração ilegal, apelidado de insurrecionista, como já o fez Mary Miller, representante republicana do Illinois, por Tim ter convocado a Guarda Nacional ao seu estado, pedindo a sua prisão imediata.
Para já o governador tem-se oposto às políticas de Trump, mas este é o truque de magia da extrema direita, podemos perder tudo, enquanto eles ganham independentemente do que seja feito, por isso mais vale mantermos a nossa bússola moral bem à vista, independentemente do que possamos perder, não cedendo um milímetro a este neo-fascismo.