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Porque comprámos 3319 computadores para alunos do 1º ciclo de Lisboa?

Dotar escolas e alunos destas ferramentas não é apenas a única forma de garantir o direito constitucional ao ensino universal; é também um investimento na adaptação tecnológica das escolas do município.

Na cidade de Lisboa, existem 28 agrupamentos de escolas do ensino público, que incluem 84 escolas básicas de 1.º ciclo e 74 jardins-de-infância. Atualmente, no 1.º ciclo, há 5.858 crianças a beneficiar de Ação Social Escolar, representando 43% do total de alunos. São alunos cujas famílias apresentam, tipicamente, baixos recursos financeiros. Muitos deles vivem em contextos desfavoráveis, com graves carências ao nível do quotidiano. Na crise pandémica em que nos encontramos, esta vulnerabilidade agudiza-se, e a Ação Social Escolar assume particular importância, já que a escola passa a ser, também, um espaço onde existem mecanismos que permitem mais equidade.

As medidas de combate à pandemia do Covid 19, ainda que necessárias do ponto de vista sanitário, vieram agravar as desigualdades sociais

As medidas de combate à pandemia do Covid 19, nomeadamente o distanciamento social imposto pelas medidas de emergência e o encerramento das escolas, ainda que necessários do ponto de vista sanitário, vieram, como todos sabemos, agravar as desigualdades sociais. O próprio afastamento da escola e da turma é, só por si, preocupante para muitas crianças, para quem a escola é o porto-seguro e a única garantia de estabilidade. Além do mais, as escolas implementam mecanismos para ultrapassar vulnerabilidades várias (projetos de integração, acompanhamento psicológico, terapias individualizadas, etc.), que pura e simplesmente desapareceram, na maioria dos casos, quando os alunos foram para casa.

Ou seja, para além do óbvio, que foi constatar que, se a maioria das escolas está a funcionar com modelos síncronos e assíncronos, dependentes de tecnologia que não existe em todos os lares, então há crianças e jovens que estão em situação de franca desigualdade em relação aos colegas, percebemos que a ausência da escola na vida destas crianças, já de si mais vulneráveis, se fazia sentir para lá dos conteúdos e exercícios a que não estariam a ter acesso.

A "Telescola", um instrumento de grande importância especialmente para os alunos mais novos, garante mínimos de equidade no que diz respeito a esses conteúdos e exercícios, isto é garante que haja ensino mas não pode garantir que haja aprendizagens reais. Para isso, é fundamental a interação entre os professores e os alunos e mesmo entre os próprios alunos. A escola é ainda um espaço de socialização, um aspecto fundamental da educação. A partilha, síncrona ou assíncrona, de produções, alegrias, preocupações e esperanças, isto é, uma comunicação o mais regular possível com professores e colegas, promove o trabalho em equipa e a manutenção do sentimento de pertença à turma. Este aspeto é particularmente relevante ao nível do 1.º ciclo, uma vez que os alunos, de um modo geral, não criaram ainda redes digitais de interação que lhes possibilitem mitigar os efeitos psicológicos do isolamento social.

 

Depois do levantamento efetuado junto dos Agrupamentos confirmou-se que a grande fatia de alunos que não tinha o equipamento necessário correspondia aos escalões A e B e que, a nível de 1º ciclo, era nos 3.ºs e 4.ºs anos que havia maior necessidade da sua utilização por parte das crianças. Foi, por isso, uma preocupação garantir que ninguém ficava para trás e que os computadores a adquirir teriam as características adequadas a todos os alunos e às suas necessidades individuais, quer se tratasse de um aluno sem qualquer medida de apoio, quer se tratasse de um aluno com necessidades de saúde especiais.

Estes equipamentos têm softwares apropriado e teclado Braille para quem dele necessita, estão adequados à faixa etária, um call center disponível para apoiar alunos e famílias e têm um router com internet ilimitada até ao final do ano letivo porque, na realidade, não basta o computador. Sem ligação à rede não existe a ligação ao professor e à turma, que são o elemento mais importante para a continuidade e sentimento de pertença, indispensáveis nessas idades.

A importância da medida passa também pela possibilidade de modernização do parque informático, já que estes computadores são devolvidos no final do ano letivo

A importância da medida passa também pela possibilidade de modernização do parque informático, já que estes computadores são devolvidos no final do ano letivo, e passam a ser geridos autonomamente pelas escolas. Será possível integrá-los noutras dinâmicas, em contexto presencial ou remoto, com estes ou outros alunos. Ou seja, dotar escolas e alunos destas ferramentas não é apenas a única forma de garantir o direito constitucional ao ensino universal; é também um investimento na adaptação tecnológica das escolas do município, o que permitirá não só lidar adequadamente com novos surtos, como ainda inovar práticas pedagógicas e combater as assimetrias estruturais que assolam as nossas escolas. Mais do que um fundo de emergência, é um investimento no futuro.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara de Lisboa
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